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terça-feira, 21 de setembro de 2010

ANÁLISE DE FILMES;

Tempos modernos [filme] Enviado sab, 27/03/2010 - 19:38 por Thiago Henrique... Tempos modernos (Abaixo, uma breve análise do filme “Tempos modernos”, exibido dia 27 de março. Lembro que outras interpretações são válidas — e bem-vindas —: avaliar criticamente é um direito de todos.) Tempos modernos (1936), dirigido por Charlie Chaplin, foi escolhido como segundo filme a ser exibido, e não por acaso: depois de A guerra do fogo, seria interessante outro filme que trabalhasse com algumas das mesmas questões (o avanço técnico e tecnológico, as relações sociais, a comunicação, a instrumentalidade), mas vistas de uma perspectiva histórico-social diferente. Ainda que trate de um tema sério, o filme de Chaplin apresenta cenas engraçadas; mas mais do que nos fazer rir por diversão, o riso pode funcionar como uma arma poderosa quando se mostra uma expressão do drama que assistimos — e que vivemos atualmente. Podemos rir de situações engraçadas vivenciadas por Carlitos, mas não podemos nos esquecer de que a época atual é a continuação da época representada no filme, continuação esta que de certo modo é ainda mais grave do que a retratada na fábrica e nas ruas da cidade em Tempos modernos. Vale lembrar que o filme foi lançado em 1936, o que nos remete a um acontecimento importante ocorrido nos Estados Unidos e que devemos ter em mente para compreender melhor a história: a quebra da bolsa de valores de Nova Iorque; focaliza-se, portanto, a vida urbana dos EUA na década de 30. Vejamos, agora, alguns pontos interessantes do filme, mas sem entrar em muitas especulações (é mais útil apontarmos caminhos para que cada um siga do que apontar apenas um, que acaba por ser compreendido erroneamente como “o único possível”; fica, pois, o convite para que interpretem as situações listadas abaixo, aceitando ou negando o que sobre elas se dirá). A respeito das primeiras cenas, que se passam dentro da fábrica, é bem nítida a crítica satírica feita sobre o sistema capitalista e a industrialização (ou, em duas palavras, sobre o “capitalismo industrial”). É mostrada a vida na sociedade industrial, caracterizada pela produção em massa, pela linha de montagem e pela especialização do trabalho. Tais pontos, vale lembrar, referem-se ao Fordismo, modo de produção capitalista baseado em inovações organizacionais e técnicas que se articulam a fim de se garantir uma maior racionalização e objetividade da produção; o trabalho é simplificado, fragmentando, e cada operário é responsável apenas por uma pequena parte do todo (algo bem diferente de tempos mais remotos, em que os artesãos, por exemplo, responsabilizavam-se pela produção total de um produto, do início ao fim, realizando todas as etapas do processo). Isso é bem nítido nas cenas iniciais do filme, quando Carlitos, na linha de montagem, é responsável por uma única coisa: apertar parafusos. Algo interessante de se notar é que o sistema fordista de produção requer menos tempo para a formação e o treinamento do trabalhador, algo útil na produção capitalista por não exigir pessoas com maior qualificação para fazer o trabalho. Assim, operários também são, de certa maneira, produzidos “em massa”: uma simples pessoa do povo, sem grande formação educacional, pode rapidamente ser transformada em um trabalhador para a linha de montagem. A charge acima é significativa se levarmos em conta o filme. Nele, não sabemos o que a fábrica produz. Ainda que possamos vê-la de dentro, seu maquinário, seus operários, não sabemos o que ali se produz; não são apenas os trabalhadores (tanto os da charge acima quanto os do filme) que desconhecem o que estão ajudando a fazer, pois nós também não temos esse conhecimento. Outro ponto importante é a produção acelerada (ainda mais quando o diretor ordena que a produção seja acelerada). É válido, sobre isso, notarmos os efeitos que essa rapidez causa nos trabalhadores, que mal dão conta de seguir o ritmo imposto. Note-se o uso da expressão “ritmo imposto”, pois os operários não têm o direito de ditar o ritmo do processo; na verdade, é a máquina (sob as ordens do capitalista) que impõe o ritmo, não os operários que as manuseiam. Nesse ponto podemos nos lembrar de um conceito importante, que é o de “fetichização”, ou seja, uma espécie de “culto à máquina”, admirada pelo capitalista por ser o aparelho tecnológico que lhe permite a criação de novos produtos e, consequentemente, o lucro. E se por um lado o maquinário tem extrema importância nesse processo, por outro lado o operário não tem grande valor, torna-se um artigo descartável — afinal, se não estiver fazendo bem sua parte, com facilidade pode ser substituído por outro (vale lembrar: mão de obra sem qualificação para esse tipo de trabalho não é algo difícil de se encontrar). Nesse sentido, nota-se tanto a mecanização da fábrica quanto a mecanização do trabalhador: este é alienado, está robotizado, agindo maquinalmente, fazendo incessantemente os mesmos movimentos. E essa situação, claro, acaba por ter resultados negativos, o que é ilustrado no filme pela crise nervosa de Carlitos, que “surta” depois do desgaste que sofreu. Ele, e os outros trabalhadores, são vítimas de uma situação na qual acabam por se tornar impessoais (são números, não pessoas), tendo sua vida prejudicada, tornada fria, dura, automatizada, irrefletida, acelerada, instantânea, pois a rapidez é essencial para a existência desse “homem moderno” — que não foi feito para viver sob a pressão desse ritmo incessante. O operário torna-se, nesse meio, uma coisa; é negado, engolido pelo poder do capital, e até mesmo perseguido se tentar qualquer espécie de revolta. É o que nos mostram as cenas posteriores, nas quais vemos o início de um protesto por parte de Carlitos. Mas esse protesto não é calculado, organizado: ocorre por acaso, quando Carlitos levanta uma bandeira vermelha (simbologia que nos liga ao Socialismo) e a multidão passa a acompanhá-lo, talvez realizando aquilo que queria realizar (o protesto) mas que nunca o havia feito por não ter um líder que iniciasse uma revolta. O curioso é que esse protesto também acaba sendo feito de forma automática, e os operários, maquinalmente, seguem cegamente quem lhes levante a bandeira. Durante todo o filme, há cenas muito interessantes que nos instigam a pensar a respeito. Vejamos algumas delas. Já na primeira cena temos uma questão interessante; nela, enquanto aparecem os créditos do filme, vemos ao fundo um relógio. Ora, um relógio nos faz lembrar de tempo, e se tivermos em mente a célebre frase moderna “tempo é dinheiro”, poderemos compreender que essa cena inicial é o prenúncio daquilo que será mostrado depois: a fábrica em ritmo frenético; a aceleração da produção, ordenada pelo diretor; a falta de tempo dos trabalhadores para descansar por um instante (ponto que fica claro se nos lembrarmos de quando Carlitos para descansar e acaba interferindo no processo todo, chegando até a ser necessário parar a linha de montagem). Outra cena emblemática é a que se segue ao close up do relógio: nela, vemos um rebanho de ovelhas, uma série de animais que totalizam uma massa sem identidade. O que torna a cena interessante é a mescla feita para uma cena posterior, quando então podemos ver uma multidão de homens e ficamos com a forte sugestão de serem, também, uma massa sem identidade, tratada como um grupo de animais: os operários, como já dissemos, perdem sua humanidade, sua individualidade, a partir do momento em que são inseridos nessa massa sem face. Como resultado, eles se tornam alienados, isto é, passam a viver sem conhecer ou compreender a realidade social e política que os cerca, deixando, por isso, que sejam influenciados e condicionado a agirem como agem, mas sem pensarem sobre a maneira como atuam. O que também podemos notar durante o filme é a clara distinção entre ricos e pobres. Na fábrica, a imagem do burguês em seu terno choca-se com as cenas que nos apresentam os trabalhadores em seus trajes sujos. Essa desigualdade ficará visível em outros momentos do filme, e ficará clara a configuração de uma situação em que a exploração do operário, do trabalhador, do proletariado, é que permite todo conforto e todo divertimento da burguesia: o lucro gerado pelo trabalho das massas desfavorecidas move o mundo de riquezas da classe mais abastada. Mais um ponto interessante é o que diz respeito ao filme em si, que é mudo. Mas não é totalmente mudo: se, por um lado, os operários não têm voz, por outro lado o burguês é o único que a tem. Isso é significativo, pois nos aponta a situação da sociedade capitalista, na qual aqueles que detêm o poder, o capital, podem expressar o que pensam, podem se fazer ouvir, mas a massa de trabalhadores não; a ela resta a obediência silenciosa. Mas podemos também notar que o rádio tem “voz”: ouvimos as palavras do locutor e, se quisermos, podemos ouvir uma espécie de eco dessa situação, qual seja, o rádio, os meios de comunicação, como uma extensão do sistema capitalista, isto é, a parte midiática de seu poder. Isso é bastante visível atualmente, já que os meios de comunicação monopolizam a informação e acabamos por consumir apenas aquilo que julgam ser notícia válida; não somos nós que escolhemos saber o que aconteceu, pois essa escolha é feita por nós, que estamos no fim dessa cadeia (que, para sermos poéticos, nos prende). Afinal, as informações de que dispomos podem passar, sem que suspeitemos, por uma série de “lavagens”, de modo que recebemos notícias “impuras” e, geralmente, tendenciosas. Em outra cena célebre, Carlitos é engolido pela maquinaria. Ainda que engraçada, ela nos aponta uma situação preocupante: Carlitos, o operário, torna-se momentaneamente parte da máquina — seja literalmente, dentro das engrenagens, seja metaforicamente, dentro do sistema de produção em que ele, como mão de obra, é uma parte, uma peça do todo. Isso nos leva ao conceito de “reificação”, ou seja, um processo a partir do qual a atividade produtiva (e os trabalhadores que dela fazem parte), as relações sociais e a subjetividade humana se identificam com a condição do inanimado; o homem é transformado em coisa (e tratado como coisa), tendo seus sentimentos ignorados pelo sistema, tornando-se embrutecido, inumano; em suma, é aceito como um objeto. Outra cena pilhérica é a do “revolucionário” aparelho automático de alimentação. Podemos rir com a imagem de Carlitos sofrendo com a máquina a entupir-lhe com comida, mas isso traz à tona algo sério: a tecnologização das coisas banais do cotidiano. Os homens, sob a vontade de facilitarem suas vidas (talvez querendo facilitá-la demais), criam aparelhos que realizem atos comuns. Hoje em dia temos escovas de dente elétricas, facas elétricas, lâmpadas que são acesas sem a necessidade de tocarmos em um interruptor... Por mais que algumas invenções de fato facilitem nosso viver (o automóvel, a lâmpada, o computador), é importante não fazermos delas mestras de nossas vidas; isso ocorrendo, cada vez mais seremos servos das máquinas, estaremos sujeitados até chegar um ponto em que não saberemos mais viver sem elas (se ficarmos uma semana acampados em algum lugar afastado da cidade, viveremos na pele essa situação e sentiremos a falta que algumas invenções fazem). Nesse processo de desenvolvimento acelerado, poderemos compreender que tal situação transparece como um grande limitador das relações humanas: o tempo é cada vez mais gasto com máquinas, e nós, ainda que não sejamos Carlitos, ficamos a cada dia mais “maquinizados” e impessoais ao fazermos de nós mesmos pessoas dependentes dos instrumentos tecnológicos. Voltando à cena, o que a torna engraçada é o fato de que, nesse caso, a máquina não melhora a situação para a qual foi concebida; incontrolável, ele acaba por atrapalhar e fazer de uma ação simples (comer) uma situação maquinal, artificial e, de certo modo, perigosa. Mas esse aparelho automático de alimentação pode nos fazer pensar em algo mais: se tivermos em mente que ela foi concebida para que os trabalhadores se alimentassem mais rapidamente, assim sobrando mais tempo para o trabalho e para o lucro do capitalista, poderemos trazer tal situação para nossos dias e perceber que é exatamente esta a lógica das redes de fast-food, onde podemos comer (mal, mas sem perder tempo) e voltar ao trabalho. Em outra ocasião, o capitalista em sua sala é visto tomando um comprimido. Não podemos saber do que se trata, mas podemos fazer uma ligação com o mundo atual e lembrar de doenças como a úlcera gástrica, a dor de cabeça e o stress, problemas de saúde eminentemente “modernos”. Alguns estudos científicos já relacionaram o stress, por exemplo, como efeito de uma vida acelerada, em que somos abocanhados por prazos, tempo curto, pouco dinheiro, problemas e preocupações diárias que, aos poucos, nos levam ao célebre “estado de nervos”. A propósito, não é outra a situação a que chega Carlitos quando “surta”. Não é, pois, apenas o capitalista que sofre com esses problemas: é sobretudo o trabalhador a vítima dessas complicações da vida moderna. E Carlitos, em crise nervosa, comporta-se de modo instigante ao apresentar atitudes anti-hierárquicas. Lembremo-nos, por exemplo, que ele joga óleo no patrão. E, ainda para especular, não poderíamos dizer que essa atitude não é uma forma de deixar implícito que todos os personagens dessa situação (Carlitos, os outros operários, o capitalista...) não passam de engrenagens dessa gigantesca máquina capitalista, e que precisam ser “lubrificados” para “funcionarem” melhor? Outra interessante cena é aquela em que Carlitos acende um cigarro no banheiro. O que temos, quase que imediatamente, é a aparição do capitalista numa tela gigante, mostrando-se onipresente e colocando em dúvida a validade e a existência, nessa sociedade, de direitos como a liberdade e a privacidade. Se nos lembrarmos da atualidade, saberemos bem que ter privacidade não é algo tão fácil quando estamos em muitos momentos sendo filmados por câmeras em uma situação que, se por um lado, tem o intuito de nos garantir maior proteção, por outro lado nos faz suspeitos em potencial. Longe de ser uma situação agradável, é algo que nos rouba muito de nossa intimidade, além de ser uma condição um tanto irônica quando lemos as famigeradas placas de “sorria, você está sendo filmado!” — sorrir? Mas qual é a graça? No geral, o que temos em Tempos modernos é um constante movimento de máquinas, de homens e também do Estado (representado pela polícia, por exemplo), buscando a ordem em uma sociedade feita de contradições — o que resulta em uma situação de constantes e inevitáveis conflitos. O filme, ainda que retrate os altos e baixos de Carlitos, não nos deixa ilesos porque podemos reconhecer na sociedade apresentada pelo filme a nossa própria sociedade. Em outras palavras, e como disse Villegas Lôpez, “em Tempos modernos não temos mais o drama de Carlitos, mas Carlitos vivendo nosso drama”. E por ser nosso esse drama que se evidencia em cada cena do filme, não podemos deixar de trazer questões que as imagens nos incitam a fazer. Uma delas, e talvez a mais preocupante, é: se tomarmos por base o mundo atual, o que Tempos modernos nos evidencia seria uma sátira ou uma espécie de profecia? E ainda podemos questionar: todo esse avanço tecnológico de fato atinge o objetivo de melhorar a vida de todos, da sociedade em geral, ou apenas a de alguns? Há, obviamente, outras muitas perguntas que poderíamos fazer. Fica o convite para fazermos esse levantamento e tentarmos (por que não?) responder algumas das interrogações. Para finalizar, dois poemas. O primeiro, escrito por Carlos Drummond de Andrade, diz respeito a Carlitos, o célebre personagem criado e personificado por Charlie Chaplin e que nos conduziu nesse passeio chamado “Tempos modernos”. O segundo, de Fernando Pessoa (sob o heterônimo de Álvaro de Campos), a cantar o novo mundo das máquinas que se estende, insaciável, desde o advento da Revolução Industrial. Canto ao homem do povo Carlos Drummond de Andrade I Era preciso que um poeta brasileiro, não dos maiores, porém dos mais expostos à galhofa, girando um pouco em tua atmosfera ou nela aspirando a viver como na poética e essencial atmosfera dos sonhos lúcidos, era preciso que esse pequeno cantor teimoso, de ritmos elementares, vindo da cidadezinha do interior onde nem sempre se usa gravatas mas todos são extremamente polidos e a opressão é detestada, se bem que o heroísmo se banhe em ironia, era preciso que um antigo rapaz de vinte anos, preso à tua pantomima por filamentos de ternura e riso dispersos no tempo, viesse recompô-los e, homem maduro, te visitasse para dizer-te algumas coisas, sobcolor de poema. Para dizer-te como os brasileiros te amam e que nisso, como em tudo mais, nossa gente se parece com qualquer gente do mundo — inclusive os pequenos judeus de bengalinha e chapéu-coco, sapatos compridos, olhos melancólicos, vagabundos que o mundo repeliu, mas zombam e vivem nos filmes, nas ruas tortas com tabuletas: Fábrica, Barbeiro, Polícia, e vencem a fome, iludem a brutalidade, prolongam o amor como um segredo dito no ouvido de um homem do povo caído na rua. Bem sei que o discurso, acalanto burguês, não te envaidece, e costumas dormir enquanto os veementes inauguram estátua, e entre tantas palavras que como carros percorrem as ruas, só as mais humildes, de xingamento ou beijo, te penetram. Não é a saudação dos devotos nem dos partidários que te ofereço, eles não existem, mas a de homens comuns, numa cidade comum, nem faço muita questão da matéria de meu canto ora em torno de ti como um ramo de flores absurdas mando por via postal ao inventor dos jardins. Falam por mim os que estavam sujos de tristeza e feroz desgosto de tudo, que entraram no cinema com a aflição de ratos fugindo da vida, são duras horas de anestesia, ouçamos um pouco de música, visitemos no escuro as imagens — e te descobriram e salvaram-se. Falam por mim os abandonados da justiça, os simples de coração, os parias, os falidos, os mutilados, os deficientes, os indecisos, os líricos, os cismarentos, os irresponsáveis, os pueris, os cariciosos, os loucos e os patéticos. E falam as flores que tanto amas quando pisadas, falam os tocos de vela, que comes na extrema penúria, falam a mesa, os botões, os instrumentos do ofício e as mil coisas aparentemente fechadas, cada troço, cada objeto do sótão, quanto mais obscuros mais falam. II A noite banha tua roupa. Mal a disfarças no colete mosqueado, no gelado peitilho de baile, de um impossível baile sem orquídeas. És condenado ao negro. Tuas calças confundem-se com a treva. Teus sapatos inchados, no escuro do beco, são cogumelos noturnos. A quase cartola, sol negro, cobre tudo isto, sem raios. Assim, noturno cidadão de uma república enlutada, surges a nossos olhos pessimistas, que te inspecionam e meditam: Eis o tenebroso, o viúvo, o inconsolado, o corvo, o nunca-mais, o chegado muito tarde a um mundo muito velho. E a lua pousa em teu rosto. Branco, de morte caiado, que sepulcros evoca mas que hastes submarinas e álgidas e espelhos e lírios que o tirano decepou, e faces amortalhadas em farinha. O bigode negro cresce em ti como um aviso e logo se interrompe. É negro, curto, espesso. O rosto branco, de lunar matéria, face cortada em lençol, risco na parede, caderno de infância, apenas imagem entretanto os olhos são profundos e a boca vem de longe, sozinha, experiente, calada vem a boca sorrir, aurora, para todos. E já não sentimos a noite, e a morte nos evita, e diminuímos como se ao contato de tua bengala mágica voltássemos ao país secreto onde dormem os meninos. Já não é o escritório e mil fichas, nem a garagem, a universidade, o alarme, é realmente a rua abolida, lojas repletas, e vamos contigo arrebentar vidraças, e vamos jogar o guarda no chão, e na pessoa humana vamos redescobrir aquele lugar — cuidado! — que atrai os pontapés: sentenças de uma justiça não oficial. III Cheio de sugestões alimentícias, matas a fome dos que não foram chamados à ceia celeste ou industrial. Há ossos, há pudins de gelatina e cereja e chocolate e nuvens nas dobras do teu casaco. Estão guardados para uma criança ou um cão. Pois bem conheces a importância da comida, o gosto da carne, o cheiro da sopa, a maciez amarela da batata, e sabes a arte sutil de transformar em macarrão o humilde cordão de teus sapatos. Mais uma vez jantaste: a vida é boa. Cabe um cigarro: e o tiras da lata de sardinhas. Não há muitos jantares no mundo, já sabias, e os mais belos frangos são protegidos em pratos chineses por vidros espessos. Há sempre o vidro, e não se quebra, há o aço, o amianto, a lei, há milícias inteiras protegendo o frango, e há uma fome que vem do Canadá, um vento, uma voz glacial, um sopro de inverno, uma folha baila indecisa e pousa em teu ombro: mensagem pálida que mal decifras o cristal infrangível. Entre a mão e a fome, os valos da lei, as léguas. Então te transformas tu mesmo no grande frango assado que flutua sobre todas as fomes, no ar; frango de ouro e chama, comida geral, que tarda. IV O próprio ano novo tarda. E com ele as amadas. No festim solitário teus dons se aguçam. És espiritual e dançarino e fluido, mas ninguém virá aqui saber como amas com fervor de diamante e delicadeza de alva, como, por tua mão a cabana se faz lua. Mundo de neve e sal, de gramofones roucos urrando longe o gozo de que não participas. Mundo fechado, que aprisiona as amadas e todo o desejo, na noite, de comunicação. Teu palácio se esvai, lambe-te o sono, ninguém te quis, todos possuem, tudo buscaste dar, não te tomaram. Então encaminhas no gelo e rondas o grito. Mas não tens gula de festa, nem orgulho nem ferida nem raiva nem malícia. És o próprio ano-bom, que te deténs. A casa passa correndo, os copos voam, os corpos saltam rápido, as amadas te procuram na noite... e não te veem, tu pequeno, tu simples, tu qualquer. Ser tão sozinho em meio a tantos ombros, andar aos mil num corpo só, franzino, e ter braços enormes sobre as casas, ter um pé em Guerrero e outro no Texas, falar assim a chinês a maranhense, a russo, a negro: ser um só, de todos, sem palavra, sem filtro, sem opala: há uma cidade em ti, que não sabemos. V Uma cega te ama. Os olhos abrem-se. Não, não te ama. Um rico, em álcool, é teu amigo e lúcido repele tua riqueza. A confusão é nossa, que esquecemos o que há de água, de sopro e de inocência no fundo de cada um de nós, terrestres. Mas, ó mitos que cultuamos, falsos: flores pardas, anjos desleais, cofres redondos, arquejos poéticos acadêmicos; convenções do branco, azul e roxo; maquinismos, telegramas em série, e fábricas e fábricas e fábricas de lâmpadas, proibições, auroras. Ficaste apenas um operário comandado pela voz colérica do megafone. És parafuso, gesto, esgar. Recolho teus pedaços: ainda vibram, lagarto mutilado. Colo teus pedaços. Unidade estranha é a tua, em mundo assim pulverizado. E nós, que a cada passo nos cobrimos e nos despimos e nos mascaramos, mal retemos em ti o mesmo homem, aprendiz bombeiro caixeiro doceiro emigrante forçado maquinista noivo patinador soldado músico peregrino artista de circo marquês marinheiro carregador de piano apenas sempre entretanto tu mesmo, o que não está de acordo e é meigo, o incapaz de propriedade, o pé errante, a estrada fugindo, o amigo que desejaríamos reter na chuva, no espelho, na memória e todavia perdemos VI Já não penso em ti. Penso no ofício a que te entregas. Estranho relojoeiro cheiras a peça desmontada: as molas unem-se, o tempo anda. És vidraceiro. Varres a rua. Não importa que o desejo de partir te roa; e a esquina faça de ti outro homem; e a lógica te afaste de seus frios privilégios. Há o trabalho em ti, mas caprichoso, mas benigno, e dele surgem artes não burguesas, produtos de ar e lágrimas, indumentos que nos dão asa ou pétalas, e trens e navios sem aço, onde os amigos fazendo roda viajam pelo tempo, livros se animam, quadros se conversam, e tudo libertado se resolve numa efusão de amor sem paga, e riso, e sol. O ofício é o ofício que assim te põe no meio de nós todos, vagabundo entre dois horários; mão sabida no bater, no cortar, no fiar, no rebocar, o pé insiste em levar-te pelo mundo, a mão pega a ferramenta: é uma navalha, e ao compasso de Brahms fazes a barba neste salão desmemoriado no centro do mundo oprimido onde ao fim de tanto silêncio e oco te recobramos. Foi bom que te calasses. Meditavas na sombra das chaves, das correntes, das roupas riscadas, das cercas de arame, juntavas palavras duras, pedras, cimento, bombas, invectivas, anotavas com lápis secreto a morte de mil, a boca sangrenta de mil, os braços cruzados de mil. E nada dizias. E um bolo, um engulho formando-se. E as palavras subindo. Ó palavras desmoralizadas, entretanto salvas, ditas de novo. Poder da voz humana inventando novos vocábulos e dando sopros exaustos. Dignidade da boca, aberta em ira justa e amor profundo, crispação do ser humano, árvore irritada, contra a miséria e a fúria dos ditadores, ó Carlito, meu e nosso amigo, teus sapatos e teu bigode caminham numa estrada de pó e de esperança. Ode triunfal Fernando Pessoa (Álvaro de Campos) À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica Tenho febre e escrevo. Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto, Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos. Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno! Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria! Em fúria fora e dentro de mim, Por todos os meus nervos dissecados fora, Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto! Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos, De vos ouvir demasiadamente de perto, E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso De expressão de todas as minhas sensações, Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas! Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical - Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força - Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro, Porque o presente é todo o passado e todo o futuro E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão, E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta, Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem, Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes, Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando, Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma. Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! Ser completo como uma máquina! Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo! Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto, Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento A todos os perfumes de óleos e calores e carvões Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável! Fraternidade com todas as dinâmicas! Promíscua fúria de ser parte-agente Do rodar férreo e cosmopolita Dos comboios estrénuos, Da faina transportadora-de-cargas dos navios, Do giro lúbrico e lento dos guindastes, Do tumulto disciplinado das fábricas, E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão! Horas europeias, produtoras, entaladas Entre maquinismos e afazeres úteis! Grandes cidades paradas nos cafés, Nos cafés - oásis de inutilidades ruidosas Onde se cristalizam e se precipitam Os rumores e os gestos do Útil E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo! Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares! Novos entusiasmos de estatura do Momento! Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas às docas, Ou a seco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos! Actividade internacional, transatlântica, Canadian-Pacific! Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotéis, Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots, E Piccadillies e Avenues de L'Opéra que entram Pela minh'alma dentro! Hé-lá as ruas, hé-lá as praças, hé-lá-hô la foule! Tudo o que passa, tudo o que pára às montras! Comerciantes; vários; escrocs exageradamente bem-vestidos; Membros evidentes de clubes aristocráticos; Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete De algibeira a algibeira! Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa! Presença demasiadamente acentuada das cocotes Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?) Das burguesinhas, mãe e filha geralmente, Que andam na rua com um fim qualquer; A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos; E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra E afinal tem alma lá dentro! (Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!) A maravilhosa beleza das corrupções políticas, Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos, Agressões políticas nas ruas, E de vez em quando o cometa dum regicídio Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana! Notícias desmentidas dos jornais, Artigos políticos insinceramente sinceros, Notícias passez à-la-caisse, grandes crimes - Duas colunas deles passando para a segunda página! O cheiro fresco a tinta de tipografia! Os cartazes postos há pouco, molhados! Vients-de-paraître amarelos como uma cinta branca! Como eu vos amo a todos, a todos, a todos, Como eu vos amo de todas as maneiras, Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!) E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar! Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós! Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura! Química agrícola, e o comércio quase uma ciência! Ó mostruários dos caixeiros-viajantes, Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria, Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios! Ó fazendas nas montras! Ó manequins! Ó últimos figurinos! Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar! Olá grandes armazéns com várias secções! Olá anúncios eléctricos que vêm e estão e desaparecem! Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem! Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos! Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos! Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos! Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera. Amo-vos carnivoramente. Pervertidamente e enroscando a minha vista Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis, Ó coisas todas modernas, Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima Do sistema imediato do Universo! Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus! Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks, Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes - Na minha mente turbulenta e encandescida Possuo-vos como a uma mulher bela, Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama, Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima. Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas! Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios! Eh-lá-hô recomposições ministeriais! Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos, Orçamentos falsificados! (Um orçamento é tão natural como uma árvore E um parlamento tão belo como uma borboleta). Eh-lá o interesse por tudo na vida, Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras Até à noite ponte misteriosa entre os astros E o mar antigo e solene, lavando as costas E sendo misericordiosamente o mesmo Que era quando Platão era realmente Platão Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro, E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele. Eu podia morrer triturado por um motor Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída. Atirem-me para dentro das fornalhas! Metam-me debaixo dos comboios! Espanquem-me a bordo de navios! Masoquismo através de maquinismos! Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho! Up-lá hô jockey que ganhaste o Derby, Morder entre dentes o teu cap de duas cores! (Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta! Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!) Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais! Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas. E ser levado da rua cheio de sangue Sem ninguém saber quem eu sou! Ó tramways, funiculares, metropolitanos, Roçai-vos por mim até ao espasmo! Hilla! hilla! hilla-hô! Dai-me gargalhadas em plena cara, Ó automóveis apinhados de pândegos e de..., Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas, Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria! Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto! Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro, As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam, Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto E os gestos que faz quando ninguém pode ver! Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva, Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos Em crispações absurdas em pleno meio das turbas Nas ruas cheias de encontrões! Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma, Que emprega palavrões como palavras usuais, Cujos filhos roubam às portas das mercearias E cujas filhas aos oito anos - e eu acho isto belo e amo-o! - Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada. A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão. Maravilhosamente gente humana que vive como os cães Que está abaixo de todos os sistemas morais, Para quem nenhuma religião foi feita, Nenhuma arte criada, Nenhuma política destinada para eles! Como eu vos amo a todos, porque sois assim, Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus, Inatingíveis por todos os progressos, Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida! (Na nora do quintal da minha casa O burro anda à roda, anda à roda, E o mistério do mundo é do tamanho disto. Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente. A luz do sol abafa o silêncio das esferas E havemos todos de morrer, Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo, Pinheirais onde a minha infância era outra coisa Do que eu sou hoje...) Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante! Outra vez a obsessão movimentada dos ónibus. E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios De todas as partes do mundo, De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios, Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas. Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado! Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores! Eh-lá grandes desastres de comboios! Eh-lá desabamentos de galerias de minas! Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos! Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá, Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões, Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim, A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa, E outro Sol no novo Horizonte! Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo, Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje? Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento, O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro, O Momento estridentemente ruidoso e mecânico, O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais. Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar, Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos, Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar, Engenhos brocas, máquinas rotativas! Eia! eia! eia! Eia electricidade, nervos doentes da Matéria! Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente! Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez! Eia todo o passado dentro do presente! Eia todo o futuro já dentro de nós! eia! Eia! eia! eia! Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita! Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô! Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me. Engatam-me em todos os comboios. Içam-me em todos os cais. Giro dentro das hélices de todos os navios. Eia! eia-hô! eia! Eia! sou o calor mecânico e a electricidade! Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa! Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia! Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá! Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá! Hé-la! He-hô! H-o-o-o-o! Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z! Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!

O mito da neutralidade dos transgênicos

O mito da neutralidade dos transgênicos

LÍNGUA ,LINGUAGENS.: FALANDO SOBRE GRANDES AUTORES DA MÚSICA BRASILEIRA...

LÍNGUA ,LINGUAGENS.: FALANDO SOBRE GRANDES AUTORES DA MÚSICA BRASILEIRA...: "CHICO BUARQUE"

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Será que ela vai chegar?

O Caminho do Rio

doc pesca recife 02

Seeing with sound

LÍNGUA ,LINGUAGENS.: The Carpenters - Calling Occupants of Interplanetary Craft

LÍNGUA ,LINGUAGENS.: The Carpenters - Calling Occupants of Interplanetary Craft

Chamando ocupantes da nave interplanetária Em sua mente, você tem as capacidades que você sabe Para mensagens telepata através do vasto desconhecido Por favor, feche seus olhos e concentrar-se Com cada pensamento que você pensa Após a recitação re nós? Sobre cantar Chamando ocupantes da nave interplanetária Chamando os ocupantes das embarcações mais extraordinária interplanetária Chamando ocupantes da nave interplanetária Chamando ocupantes da nave interplanetária Chamando os ocupantes da embarcação interplanetário, o mais extraordinário Você esteve observando a nossa terra E nós? D como fazer um contato com você Nós somos seus amigos Chamando ocupantes da nave interplanetária Chamando os ocupantes do ultra-interplanetária emissários Nós? Estive observando a sua terra E uma noite nós? Ll fazer um contato com você Nós somos seus amigos Chamando os ocupantes da embarcação extraordinária interplanetária E por favor, venha em paz, nós vos suplicamos Apenas uma aterragem vai ensiná-los Nossa terra não pode sobreviver Então venha, nós te imploro Por favor, policial interestelar Oh por que você não dê um sinal Dê-nos um sinal de que nós? Ligou para você Com sua mente você tem capacidade de formar E transmitir a energia do pensamento para além da norma Você fecha seus olhos, você se concentra Junto isso? É a maneira Para enviar a mensagem Nós declaramos dia de contato do mundo Chamando ocupantes Chamando ocupantes Chamando os ocupantes da embarcação anti interplanetária adversário, Nós somos seus amigos (Http://www.lyricsfreak.com) Calling occupants of interplanetary craft In your mind you have capacities you know To telepath messages through the vast unknown Please close your eyes and concentrate With every thought you think Upon the recitation we?re about to sing Calling occupants of interplanetary craft Calling occupants of interplanetary most extraordinary craft Calling occupants of interplanetary craft Calling occupants of interplanetary craft Calling occupants of interplanetary, most extraordinary craft You?ve been observing our earth And we?d like to make a contact with you We are your friends Calling occupants of interplanetary craft Calling occupants of interplanetary ultra-emissaries We?ve been observing your earth And one night we?ll make a contact with you We are your friends Calling occupants of interplanetary quite extraordinary craft And please come in peace, we beseech you Only a landing will teach them Our earth may never survive So do come, we beg you Please interstellar policeman Oh won?t you give us a sign Give us a sign that we?ve reached you With your mind you have ability to form And transmit thought energy far beyond the norm You close your eyes, you concentrate Together that?s the way To send the message We declare world contact day Calling occupants Calling occupants Calling occupants of interplanetary, anti-adversary craft We are your friends (http://www.lyricsfreak.com)

LÍNGUA ,LINGUAGENS.: The Carpenters - Calling Occupants of Interplanetary Craft

LÍNGUA ,LINGUAGENS.: The Carpenters - Calling Occupants of Interplanetary Craft

The Carpenters - Calling Occupants of Interplanetary Craft

Carpenters - Goodbye To Love

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O big bang da bioindústria

Publicado em: Época Negócios (Inovação) em 1 de Agosto de 2010 


Obig bang da bioindústria Por Carlos Rydleski, Rafael Barifouse e Alessandro Greco Edição de agosto da revista Época Negócios traz várias matérias sobre inovação tecnológica, destacando projetos que contaram com apoio da FAPESP. A reportagem ´O big bang da bioindústria´ descreve em 22 páginas o processo de inovação em empresas brasileiras de biotecnologia, especialmente nas áreas de medicina e agronegócio. Entre os investidores estão cientistas renomados que estiveram envolvidos em importantes pesquisas científicas como o sequenciamento do Genoma da bactéria Xyllella fastidiosa e do Genoma Câncer. Pergunte a Bill Gates qual ramo da atividade humana abriga o embrião da próxima grande revolução tecnológica. Esqueça a internet, os celulares, os games, a realidade ou a inteligência virtuais. A resposta é a biotecnologia. O fundador da Microsoft acredita que esse campo desempenha na atualidade papel semelhante ao exercido pela programação de computadores no século 20. Ou seja, concentra o que há de mais instigante e potencialmente transformador no planeta. E o executivo, entre os mais bem-sucedidos da história do capitalismo, argumenta: "Hoje, se alguém quer mudar o mundo de forma radical, deve começar pelas moléculas. Elas precisam do mesmo tipo de fanatismo amalucado, característico dos jovens gênios que criaram a indústria dos PCs".    Agora, pergunte a gigantes globais como DuPont, BP, Basf, Shell, Monsanto, Bunge, Dow Chemical, Ely Lilly e Novozymes, além de fundos de investimento, como Burrill & Company e Khosla Ventures, qual país reúne condições excepcionais para abrigar parte expressiva dessa nova fonte de inovações. A resposta é o Brasil. Tal indicação pode soar surpreendente, mas existem mais de 100 companhias brasileiras de biotecnologia. A cada ano, mais de uma dezena de empreendimentos desse tipo são criados. Não há estudos conclusivos, mas o governo federal estima que essa área receba US$ 1 bilhão em investimentos por ano. Além de crescente, esse núcleo de empresas introduz novidades significativas no cenário corporativo nacional. Em primeiro lugar, entrelaça os mundos da ciência e dos negócios. Dessa fusão, movida por altas doses de pesquisa e conduzida por times qualificadíssimos de profissionais, tendem a proliferar inovações em profusão. Ela funciona como um propulsor, uma espécie de Big Bang para idéias e produtos inusitados. Exemplos desse poder criativo são oferecidos há décadas de maneira ininterrupta pelas indústrias de semicondutores, telecomunicações (celulares, por exemplo), eletrônicos e materiais avançados. Todas com os pés firmemente fincados em laboratórios.  Paralelamente, a formação das bioempresas no Brasil alimenta - e fortalece - um ecossistema de negócios riquíssimo, embora ainda frágil no país. Funciona assim: tudo começa nas universidades. Elas abrigam incubadoras, onde são embaladas as jovens empresas (as start ups) que, não raramente, amadurecem e se associam a grandes conglomerados nacionais e internacionais. Esse sistema é complementado por uma ampla teia de financiamentos formada por angel investors (investidores anjos, normalmente pessoas físicas) e venture capitalists (investidores de risco), além de fundos públicos e privados de todos os portes. "Esse modelo, que tem todos os ingredientes para estimular o empreendedorismo, fundou o Vale do Silício, nos Estados Unidos. Agora, começa a ganhar corpo entre nós", diz Eduardo Emrich Soares, presidente da Fundação Biominas, uma organização não governamental com sede em Belo Horizonte, voltada para o fomento de negócios enraizados nas ciências biológicas. Neste ponto, é ilustrativo observar a gênese da empresa paulista Pele Nova. Ela foi criada em 2003 por dois cientistas: a médica oncologista Fátima Mrué e o médico especializado em bioquímica Joaquim Coutinho Netto. Ambos trabalhavam como pesquisadores na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), no campus da USP, no interior paulista. A dupla desenvolveu um produto, o BioCure, feito do látex extraído da seringueira. A inovação, uma membrana de borracha, funciona como um tecido artificial. É empregado com sucesso na cicatrização de úlceras crônicas e na regeneração de esôfagos e tímpanos perfurados. Atualmente, a mesma matéria-prima (o látex) está sendo testada no desenvolvimento de um gel antirrugas. Qual o resultado da iniciativa? A Pele Nova acumula sete patentes depositadas no Brasil, Estados Unidos, Europa e Japão. A arquitetura financeira da empresa é outro fator de interesse. Inicialmente, arrecadou R$ 4 milhões. Parte do valor foi captada com investidores anjos. Entre eles, Ozires Silva, o ex-presidente da Embraer e da Varig. Outro quinhão saiu de um fundo semente (seed capital), o Returning Entrepreneur Investment Fund, conhecido pela sigla REIF, da DGV Investment. Também aplicaram recursos no negócio outras três empresas de venture capital. A Pele Nova arrecadou mais R$ 2 milhões do Programa Primeira Empresa Inovadora (Prime), mantido pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia. Por conta de acordos de confidencialidade, a start up não divulga o faturamento, mas estima-se que gire em torno de R$ 3 milhões. LEGO VIVO_A história de empresas desse tipo é sugestiva, mas, para vislumbrar o quão amplas são as oportunidades abertas no país nesse setor, é preciso entender o significado - e o alcance - do termo biotecnologia. Ele designa um conjunto de técnicas cujos avanços mais desconcertantes ocorreram nas últimas três décadas. A maioria dessas conquistas tecnológicas está associada a descobertas sobre a estrutura e o funcionamento de uma das peças mais intrigantes existentes nos seres vivos: o DNA, também conhecido pelo simpático nome de ácido desoxirribonucleico. O DNA é uma molécula, mas não uma qualquer. Enrolada nos cromossomos, está confinada ao núcleo das células. um espaço liliputiano com 0,005 milímetro. Mas. desenrolada, atinge 2 metros de comprimento. Ela traz longas sequências de genes (28 mil, no caso de uma pessoa), onde estão armazenadas as informações com as características básicas de tudo o que vive sobre a face da Terra. Esses dados são repassados gerações a fio. Pois o feito mais notável da biotecnologia foi conferirão homem a habilidade de manipular esse código genético - e reinventar a vida. Na prática, atualmente, é possível combinar genes como se fossem peças de um brinquedinho da Lego. É viável construir combinações inusitadas, inexistentes no mundo natural. Bom Irisar: não se trata de um feito banal. Não por acaso, desde os primórdios da moderna biotecnologia, a partir de meados dos anos 70, são recorrentes as críticas contra cientistas que querem "brincar de Deus". Hoje, contudo, essa brincadeira já rendeu um amplo e cada vez mais impressionante leque de aplicações. Elas alcançam mais de 200 produtos e serviços, movimentando globalmente cifra superior a US$ 150 bilhões por ano. O arsenal de ferramentas biotecnológicas permite, por exemplo, que a característica de um microrganismo, uma planta ou um animal seja transferida para outro. Assim, no limite, uma semente de soja transgênica pode adquirir a mesma resistência à aridez de um cacto. Na medicina, abre perspectivas que beiram a ficção. Esse é o caso do desenvolvimento de drogas mais eficazes no combate a doenças genéticas (o que abrange desde a fibrose cística até o câncer), além da produção de remédios personalizados e vacinas ultraeficientes. O uso dessas técnicas avança sobre o meio ambiente, com a chamada biorremediação, em que plantas são moldadas para remover poluentes do solo ou da água. O Brasil tem Lima vocação manifesta para o emprego da biotecnologia em duas áreas: a agricultura, o que inclui a produção de energia renovável (os biocombustíveis), c a saúde. Uma pesquisa realizada pela Fundação Biominas identificou até o ano passado a existência de 253 companhias com negócios ligados as ciências biológicas no país. Eram 80 dez anos atrás. Em uma década, portanto, o crescimento superou os 200%. A estimativa é que sejam listados 320 empreendimentos desse tipo em 2010. Do total das 253 empresas, um grupo de 110 emprega diretamente a biotecnologia (o restante inclui, por exemplo, prestadores de serviços e fornecedores de equipamentos). Entre as companhias biotecnológicas, predominam as ligadas á agricultura (26,4%) e â medicina (20%). Nesses dois nichos, o mais vibrante é o que busca alternativas tecnológicas para produzir mais - e melhor - o etanol.  Esse é um projeto de alcance global, que envolve companhias de todo o mundo, numa corrida em busca do combustível renovável ideal. O Brasil, contudo, larga na primeira fila dessa competição, graças à ampla liderança conquistada desde os anos 70, com o Pró-Álcool. Alguns viciados evidenciam o quão significativa é a vantagem competitiva da indústria nacional. O país é o maior produtor mundial de cana e o maior exportador de açúcar - responde por 45% de todo o produto comercializado no planeta. No etanol, só perde para os Estados Unidos. Transformou-se no maior laboratório do mundo para o desenvolvimento de motores bicombustíveis. Hoje, nove em cada dez carros que saem das montadoras brasileiras são flex, funcionam com gasolina e álcool. Para completar, no ano passado os brasileiros consumiram 19 milhões de metros cúbicos de gasolina, ante 22,8 milhões de metros cúbicos de etanol. Traduzindo: estamos no único país do planeta onde a gasolina pode ser chamada de "combustível alternativo". Diversos caminhos - ou, no jargão, rotas tecnológicas - permitem que a biotecnologia aprimore a produção do etanol. A criação de novas variedades de cana-de-açúcar é uma dessas frentes. As versões transigências podem se tornar mais resistentes a intempéries, produzir mais sacarose ou mesmo ter a espessura e a altura mais apropriadas ao corte mecanizado. É com esse objetivo que trabalha a parceria firmada em 2009 entre a gigante química alemã Basf e o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), de Piracicaba, no interior paulista. Por meio do artifício biotecnológico, as empresas querem criar um novo tipo de cana, cujas propriedades aumentariam cm 25% a produtividade da planta. Assim, a colheita nos canaviais saltaria de 80 toneladas (valor médio) para 100 toneladas por hectare. Tecnicamente, a meta da parceria é alterar a estrutura genética da cana, fazendo com que tolere terrenos mais secos. Tal mudança permitiria o cultivo em regiões com períodos mais acentuados de estiagem, hoje consideradas inadequadas para a cultura. "Em 2009, as usinas brasileiras produziram 27,5bilhões de litros de etanol. Em 2020, estima-se uma demanda superior ao dobro da atual, de 65 bilhões de litros", diz Luiz Carlos Louzano, gerente de biotecnologia da Basf para a América Latina. "A inovação tecnológica é indispensável para que possamos atingir esse patamar de produção." A Basf e o CTC calculam que a nova variedade chegue ao mercado em dez anos. "Esse prazo considera o desenvolvimento do produto e a sua aprovação por órgãos de controle de transgênicos dentro e fora do Brasil", afirma Louzano. Para um produto com maturação tão longa, grandes investimentos são imprescindíveis. A Basf não divulga o valor do aporte na parceria com o CTC, mas aplica US$ 1,7 bilhão por ano em pesquisa. A cota para biotecnologia é de US$ 180 milhões. Investe ainda na aquisição de pequenas empresas inovadoras, à semelhança do que ocorre no mundo digital, onde os gigantes vivem engolindo as start ups. Em 2006, por exemplo, a Basf comprou a belga CropDesign. Essa companhia faz uma "seleção artificial" de espécies. Ela analisa 5 mil genes por ano. Para isso, usa fotografias computadorizadas. As mudas são colocadas numa esteira, onde são fotografadas e cadastradas. Os dados sobre o aumento do peso e da massa são registrados ao longo do tempo. No final, com base nesse darwinismo imagético, vence a variedade com melhor combinação de genes. Com ferramentas desse tipo, por que a Basf precisa de uma parceria com o CTC? Essa questão deve ser respondida em duas frentes. A primeira diz respeito ao mérito técnico. Em se tratando de cana, o centro tecnológico de Piracicaba é uma referência global. Detém o maior banco de germoplasma (material genético) de cana do mundo, além de pesquisadores que seriam titulares em qualquer time de cientistas do planeta. Fundado em 1969, o CTC é sustentado por 182 usinas. Agora, vai se transformar numa empresa e tentar faturar com os royalties provenientes de suas descobertas. DEPENDÊNCIA GEOGRÁFICA_Quem fornece a outra parte é ela resposta é o biólogo e venturo capitalist Fernando Reinach, pioneiro nas pesquisas e nos bionegócios no Brasil. "A biotecnologia aplicada à agricultura não funciona como uma fábrica de chips, que pode operar na China e vender processadores no Alasca. Ela está intrinsecamente ligada ao campo e tem de conviver com suas características. Essa indústria sempre precisará testar e adequar seus produtos a determinadas regiões. Em resumo, ela é geograficamente dependente", diz einach. "E isso é bom para o país. Mesmo os grandes conglomerados globais tendem a criar parcerias para atuar por aqui, o que resulta em investimentos e em transferência de conhecimento." Esse é um dos motivos pelos quais o CTC também mantém um acordo com a Dow AgroSciences, braço de agronegócios da Dow Chemical, para a produção de outra versão da "tecnocana". Nesse caso. a variedade é resistente a pragas como a brocado-colmo (Diatraca saccharalis), responsável por prejuízos de R$ 1 bilhão por ano nos canaviais brasileiros. A doença é disseminada por larvas de mariposas. Elas penetram na planta c reduzem seu teor de sacarose. A Dow entra no negócio com genes resistentes a esse tipo de praga, testados em culturas como milho, soja e algodão. "No CTC, introduzimos esse material genético na cana e avaliamos o resultado da combinação. Parece que jogamos uma partida de baralho em busca da melhor mão. A diferença é que a biotecnologia nos dá um quinto ás. Com ela, conseguimos controlar melhor os resultados", afirma William Burnquist, gerente de desenvolvimento estratégico do CTC. As possibilidades abertas pela manipulação genética não se resumem à alteração das características da cana. A Amyris, companhia com sede em Emery ville, no Vale do Silício, Estados Unidos, que aportou no Brasil em 2007, está em pleno voo para alcançai- uma meta bem mais ambiciosa. A empresa alterou a estrutura genética de uma levedura, a Saccharomyces cerevvisiae, usada na fabricação do etanol. Com a mudança, o microrganismo passou a gerar uma molécula chamada farneseno, um hidrocarboneto, semelhante ao empregado na produção de combustíveis de origem fóssil, como a gasolina c o diesel. O resultado prático dessa inovação beira o inacreditável. A nova tecnoligia permite que itens como o diesel - ou o querosene de aviões - seja produzido á base de cana. E não se trata de variações exóticas desses produtos. Ao contrário, eles têm propriedades idênticas aos convencionais. Sem adaptação, podem ser avançados diretamente nos tanques de combustível de caminhões e aeronaves. A adição de até 20% do diesel de cana ao tradicional já passou pelo crivo da Agência de Proteção Ambiental americana (EPA, na sigla em inglês). Seis ônibus da rota paulistana também testam uma mistura com 10% do produto desde julho. Detalhe: a levedura projetada pelos pesquisadores da Amyris é multiúso. O farneseno, após ligeiras modificações, pode ser usado em linhas de produção tão variadas como a de lubrificantes e a de cosméticos. Em tese, isso quer dizer que cremes faciais também podem surgir dos canaviais. "O mercado de álcool e açúcar é volátil. Seus preços oscilam muito de acordo com as safras. Nossa intenção é montar uma usina flexível, que produza o que for melhor em cada momento, sempre com base na cana", diz Roel Collier. presidente da Amyris no Brasil. A Amyris foi fundada cm 2003, por um grupo de cientistasda Universidade da Califórnia, em Berkeley. No ano seguinte, recebeu US$ 42 milhões da Fundação Bill & Melinda Gates. O dinheiro financiou a criação de um método mais barato para produzira artemisina, droga usada no tratamento da malária. Para isso, os pesquisadores alteraram á estrutura genética da levedura. Descobriram, posteriormente, seu enorme potencial. O detalhe: ela. naturalmente, se alimenta de açúcar como fonte de carbono para produzir todas as substâncias de interesse-diesel, querosene, lubrificantes, cosméticos e o que mais surgir. Há três anos, a Amyris instalou-se no Brasil, com uma planta piloto em Campinas. Nas imediações do projeto, encontram-se os tecnológicos e universidades, onde foi recrutada grande parte de sua equipe com 70 Ph.Ds. e mestres. Em parceria com o grupo paulista São Martinho, a companhia adapta, em Pradópolis (SP), a sua primeira usina para a produção de farneseno. Em 2012, a indústria deve processar 100 milhões de litros de diesel de cana. volume que pode dobrar no ano seguinte. Mas como o mercado global é muito maior, soma 50 bilhões de litros anuais, a Amyris já firmou acordos com outros megagrupos sucroalcoolciros do país, como Cosan, Bunge e Guarani. A intenção é construir novas fábricas nos próximos três anos para multiplicar por dez a capacidade de produção de 2012. Outra inovação ligada ao setor sucroalcooleiro surge de uma joint venture, a Butamax Advanced Biofuels, formada em julho de 2009 pela DuPont e a British Petroleum (BP). A companhia quer produzir, com base a cana-de-açúcar, o biobutanol (o butano) tem origem fóssil). Em comparação ao etanol, ele é sutilmente superior. Uma molécula de etanol tem dois átomos de carbono. A molécula do biobutanol traz quatro. O resultado prático dessa microscópica vantagem é um rendimento 20% superior. Outra peculiaridade: ele não se mistura à água. Pode, assim, percorrer os mesmos dutos usados na distribuição de derivados de petróleo. "O biobutanol não precisa de uma nova infraestrutura para ser colocado no mercado. Isso reduz o custo operacional da introdução do produto", diz Ricardo Vellutini, presidente da DuPont do Brasil. O negócio da Butamax é global. Criada por uma companhia americana (a DuPont) e outra britânica (a BP), mantém uma planta piloto em Hull, na Inglaterra, e ergue uma fábrica em Delaware, nos Estados Unidos. Essa indústria deve operar a partir de 2012.0 grupo iniciou suas pesquisas em 2005. Testes para a produção de biobutanol, cujo desenvolvimento acumula 70 patentes, foram feitos com fontes variadas de energia renovável, como o milho, o trigo, a celulose, as algas e a cana-de-açúcar. Ganha um tanque cheio quem adivinhar qual foi considerada a mais competitiva e sustentável nessa seleção: foi a, digamos,"anade-energia". A parceria entre DuPont e BP está prestes a inaugurar um laboratório em Paulínia, no interior paulista, onde atuarão cientistas brasileiros e uma população flutuante de pesquisadores estrangeiros. A médio prazo, faz parte dos planos da Butamax transformar o Brasil numa plataforma para a exportação do biobutanol. "O produto pode ser complementar ao etanol. Ele agrega valor ã cadeia e proporciona uma alternativa ao setor sucroenergético", diz Mario Lindenhayn, presidente da BP Biofuels Brasil. Para a petrolífera britânica, o país disputa somente com os Estados Unidos a hegemonia dos biocombustíveis. Por isso mesmo, a BP pagou R$ 100 milhões, em 2008, por 50% da participação da Tropical Bioenergia, uma usina dos grupos Santelisa Vale e Maeda, em Edeia, Goiás. Com investimentos estimados em US$ 1 bilhão, a empresa e seus parceiros locais prevêem a construção nos próximos anos de uma nova unidade fabril, a Tropical LONGA LISTA_ Embora robusta, a relação de negócios enumerada até aqui representa uma parte minúscula do mergulho do setor sucroalcooleiro na biotecnologia. Completo, o conjunto de iniciativas é de tirar o fôlego. Eis um breve resumo. No fim de 2008, a Monsanto, a maior empresa de produtos agrícolas transgênicos do mundo, pagou US$ 290 milhões idéias brasileiras AlellyxeCanaVialis de Campinas. Elas haviam sido criadas entre 2002 e 2003, num investimento de US$ 40 milhões do fundo Votorantin Novos Negócios. Observe-se que a Cana Vialis é a maior empresa privada de melhoramento de cana do mundo. Mantém contratos com dezenas de usinas nacionais. Há mais. No início deste ano, a Shell e a Cosan assinaram um acordo para a criação de uma joint venture, com valor estimado em US$ 12 bilhões. A empresa petrolífera colocou no negócio ativos de duas companhias de biotecnologia: a Iogen e a Codexis, especializadas na produção de combustíveis de resíduos agrícolas. Em rota similar, em março, a indústria dinamarquesa Novozymes, uma referência em biotecnologia global, apresentou no Brasil duas enzimas geneticamente modificadas, a Cellic CTec2 e a Cellic HTec2, que podem transformar a palha, os restos de madeira e o bagaço de cana em álcool. A Petrobrás também desenvolve pesquisas nesse campo, conhecido como etanol de segunda geração (ou celulósico). Com a tecnologia, a empresa quer aumentar em 60% a produtividade do combustível, sem ocupar um hectare a mais de plantio. Se ampliada para a agricultura em geral, a ligação entre a roça e a biotecnologia parece inesgotável. Relatório de uma entidade americana com nome pomposo, o Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações Agrobiotecnológicas (Isaaa, na sigla em inglês), divulgado em fevereiro, classificou o Brasil em segundo lugar entre os maiores produtores mundiais de alimentos geneticamente modificados, os transgênicos. O plantio desse tipo de produto, aplicado à soja, ao milho e ao algodão, estendeu-se por 21,4 milhões de hectares no ano passado, ante 15,8 milhões em 2008. Uma elevação de 35%. O país ficou atrás somente dos Estados Unidos (64 milhões de hectares), mas ultrapassou a Argentina (com 21,3 milhões de hectares). No mundo, com 25 países produtores, a área total de transgênicos atingiu 134 milhões de hectares em 2009, um crescimento de 7% em relação ao ano anterior. Os números nacionais tendem a crescer, pois o Brasil se consolidou nas últimas duas décadas como o grande celeiro global. Está entre os maiores produtores mundiais de mais de uma dezena de itens agropecuários. E esse é um apelo irresistível para os inventores de transgênicos. A mesma Basf que atua em parceria com o CTC na cana-de-açúcar aliou-se à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) para o desenvolvimento de uma soja geneticamente modificada resistente a herbicidas. O desenvolvimento do produto, da linha Cultivasse. Recebeu investimentos de US$ 6 milhões e será lançado no Brasil a partir da safra 2011/2012. BIOVESPA. As possibilidades no campo são tão grandes que o Brasil também tem start ups voltadas para a agricultura. A Bug de Piracicaba (SP), é um exemplo. Ela fabrica variedades de uma pequena vespa marrom, a Trichogramma. Esse bichinho é usado no controle de pragas agrícolas, caso da broca da cana, em substituição aos inseticidas convencionais. O custo baixo é peça central da propaganda da companhia. A empresa calcula que 1 hectare de plantação requer 1 milhão de vespinhas, que custam R$ 10.0 litro de inseticida aplicado na mesma área sai por R$ 1 mil. A formação da Bug lembra o caso já descrito aqui da Pele Nova. Seus fundadores, Danilo Pedrazzoli e Diogo Carvalho, mudaram-se para Piracicaba para fazer uma pós-graduação no campus da Universidade de São Paulo (USP). Ali, a dupla tomou contato com a pesquisada Trichogramma. Depois disso, os sócios dedicaram um ano e meio para desenvolver a nova tecnologia. Criaram, por exemplo, um sistema de exaustão para os laboratórios, já que os milhões de insetos reunidos consumiam muito oxigênio, o que tomava o ar rarefeito no centro de produção. Para isso, investiram R$ 700 mil do próprio bolso e obtiveram um financiamento de R$ 1,2 milhão da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Hoje, a start up produz 120 milhões de vespas por dia. O negócio prosperou. A Bug fatura R$ 3.5 milhões e a receita obtida com 150 clientes dobra a cada ano desde 2006. Há três anos, tinha 30 funcionários. Hoje. conta com 100. Em 2009, abriu uma filial em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Mas Pedrazzoli e Carvalho vêem espaço para crescer mais. Em parceria com a USP a Bug desenvolve uma nova vespa para plantações de soja. Essa pesquisa consumirá boa parte de um investimento de R$ 1 milhão, feito pelo Criatec. Um fundo do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES). É surpreendente o número de empreendimentos brasileiros de biotecnologia na área da saúde. Em volume, esses negócios só perdem para a agricultura. Representam 20% do total. Dois fatos contribuem para essa abundância. Em primeiro lugar, o Brasil tem qualidades raras para a realização de testes clínicos de novos medicamentos. Conta com pacientes dispostos a participar de ações experimentais desse tipo (nos Estados Unidos, as empresas competem por esses grupos) e possui uma população geneticamente diversificada - o que torna ainda mais fértil o campo para a aplicação dessas pesquisas. A história da biotecnologia no Brasil é outro fator que contribui para a grande porção de empresas focadas em aplicações na área médica. [A primeira companhia na dona] desse ramo foi a Biobras, fundada em Belo Horizonte, em 1976. Pelo empreendedor Guilherme Emrich. por Marcos Luiz dos Mares Guia, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, com seu irmão, Walfrido dos Mares Guia, empresário e ex-ministro do Turismo no governo Lula. Em 2000, em parceria com o laboratório Eli Lilly, a companhia transformou-se na quarta maior fabricante mundial de insulina geneticamente modificada, chamada de "recombinante". No ano seguinte, a fábrica foi comprada pelo grupo Novo Nordisk, por US$ 31 milhões, mas os sócios mantiveram as patentes e criaram uma sucessora: a Biomm. Emrich, desde então, tornou-se um investidor. A biotecnologia, contudo, ganhou real impulso no Brasil a partir de 1997. A primeira centelha surgio numa conversa informal entre o físico José Fernando Pérez e o biólogo Fernando Reinach. O primeiro era diretor científico da Fapesp. O segundo, professor titular do Instituto de Química da USP. Ambos discorriam sobre a importância desse conjunto de técnicas para o desenvolvimento do país. Era evidente a urgência em criar competências num campo do conhecimento com aplicações voltadas para a biodiversidade, a agricultura, a pecuária e a saúde, todos setores de alta relevância - e potencial - para a economia brasileira. A dupla concluiu que a forma mais eficaz de mergulhar nesse mundo seria por meio de uma pesquisa ousada: o sequenciamento do genoma de um ser vivo. Esse tipo de investida consolidaria a expertise necessária para que os pesquisadores nacionais mergulhassem nesse braço da vanguarda da ciência. Reinach sugeriu que o alvo fosse uma bactéria. Optou-se pelaXylella fastidiosa, conhecida como "amarelinho", que ataca os laranjais paulistas. A escolha não foi feita ao acaso. Penetrar nas min úcias genéticas do microrganismo era relevante em termos econômicos, pois ajudaria no combate â praga. Além do mais, tratava-se de uma tarefa exequível. A Xylella é um organismo simples. Tem 2,7 milhões de pares de letras químicas, como AT, CG. Uni ser humano tem 3 trilhões. Para executar a empreitada, foi montada uma rede virtual com 30 laboratórios e 192 pesquisadores, chamada ONSA (Organization for Nucleoti de Sequencing and Analysis). A sigla era uma paródia â organização do cientista americano J. Craig Venter, a TIGR (The Institute for Genomic Research), como "tigre" em inglês, que começava a sequências o genoma humano. O projeto contou com investimento de US$ 12 milhões da Fapesp, o maior até então bancado pela entidade, e US$ 500 mil do Fundo de Defesa da Citricultura, formado por empresas do setor, interessadas na peleja contra a Xylella. O trabalho era liderado pelo biólogo Paulo Arruda, na Unicamp, c por Reinach. na USP. A coordenação-geral ficou a cargo de Andrew Simpson, do Instituto Ludwig no Brasil, entidade sem fins lucrativos com centros de pesquisa na Bélgica, Austrália, Suécia, Estados Unidos, Suíça e Reino Unido. Um terceiro laboratório, o de bioinformática, era coordenado por dois jovens cientistas da compu taçãô: João Setúbal e João Meidanis. O sequenciamento durou dois anos e foi concluído com sucesso. A iniciativa levou pela primeira vez uma pesquisa feita por cientistas brasileiros à capa da prestigiada revista científica Natiirc. em junho de 2000. Simultaneamente á ONSA. a Fapesp participou do sequenciamentodo genoma humano do câncer, ao lado do Instituto Ludwig. A parceria destrinchou aproximadamente 1,2 milhão de trechos de genes associados a diversos tipos da doença. O esforço teve um resultado notável. O Brasil tomou-se o segundo país do mundo a depositar sequências de genes relacionadas a tumores no GenBank. o banco de dados público mundial. Nesse quesito, ficou atrás somente dos Estados Unidos. A tecnologia utilizada na empreitada foi criada no Brasil pelo bioquímico mineiro Emmanuel Dias Neto. A técnica permitiu um sequenciamento mais veloz ao selecionar apenas o material genético que produz proteínas, a parte mais rica do genoma. A bioinformática empregada no processo foi desenvolvida pelo biólogo Sandro de Souza. Ele trabalhava na Universidade de Harvard, no laboratório de Walter "Wally" Gilbert, prêmio Nobel de Química, um dos pioneiros da pesquisa mundial de biotecnologia. Souza era bolsista da fundação americana Pew e, à época, a instituição mantinha um programa de incentivo financeiro para estudantes que quisessem voltar ao país de origem. Por coincidência, o biólogo havia recebido um convite para retornar ao Brasil e participar da ONSA. Não titubeou. "Com o cunheiro da Pew, comprei dois servidores. Um veio comigo no avião, o outro despachei pela Feclex. Quando cheguei ao Ludwig, coloquei-os numa sala, montei c, com uma inacreditável linha telefônica discada de modem, começamos a trabalhar", diz Souza. ENTÃO, O BIG BANG, o prêmio por essas ações foi o nascimento da indústria brasileira de biotecnologia. O conhecimento produzido nas universidades serviu de argamassa para a estruturação das empresas. Em 2002, a Votorantim Novos Negócios, fundo de capital de risco do Grupo Votorantim. reuniu parte da equipe que havia participado do projeto Xylella e montou a Alellyx (o nome invertido da bactéria), para atuar no melhoramento genético de plantas. No ano seguinte, fundou a CanaVialis, para executar a mesma tarefa no setor sucroalcooleiro. As duas empresas foram compradas no fim de 2008 pela Monsanto. Por trás da origem desses negócios estava Fernando Reinach. Licenciado da USP, assumiu o cargo de diretor executivo do fundo da Votorantim. "Quando terminamos o projeto da Xyllela, coloquei os ciados â disposição de pesquisadores do mundo inteiro. Pedi para que o responsável pelo laboratório de bioinformática, João Paulo Kitajima. monitorasse quem faria o download das in formações. Ele foi feito por todas as multinacionais da área agrícola. No Brasil, ninguém se interessou pelo material. Percebi, então, que estava na hora de criar uma empresa para atuar nesse setor. Assim, surgiu a Alellyx". conta Reinach. O físico José Fernando Pérez, ex-diretor científico da Fapesp, cuja digital também está impregnada na história dessa indústria, seguiu roteiro semelhante. Em 2005, foi convidado pelo Instituto Ludwig a montar uma empresa de biotecnologia, a Recepta Biopharma. Para isso, recebeu da instituição quatro moléculas, chamadas de anticorpos monoclonais, consideradas promissoras no combate ao câncer. O projeto recebeu investimentos de R$ 10 milhões, em parte feito por dois investidores anjos, os empresários Emílio Odebrecht e Jovelino Mineiro. Contou também com R$ 18 milhões da Finep. ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, em três rodadas de subvenção, realizadas em 2006, 2007 e 2009. A Recepta trabalha com parceiros como o Instituto Butantan. o Ludwig e a Faculdade de Medicina da USP. Espalhados por essas instituições, a empresa conta com 32 pesquisadores. A tarefa da companhia é gerenciar o conhecimento produzido nessas três frentes. Os anticorpos monoclonais são proteínas que reconhecem tumores nas superfícies das células. Eles funcionam como a tecla "localizar" dos editores de texto nos computadores. Identificam esses alvos (os focos dos tumores, tam bem chamados de antígenos) e ativam o sistema imunológico dos pacientes para atacá-los. Não evitam a doença, mas podem conter a metástase. Os anticorpos são desenvolvidos em camundongos. Posteriormente, por meio da engenharia genética, recebem uma espécie de capa de proteção para que possam ser aplicados cm seres humanos. Hoje, a Recepta investiga a atuação desses anticorpos no tratamento de tumores de ovário, estômago e mama. Essa análise é feita por meio de testes clínicos. Na chamada Fase I, o exame dá-se com dez ou 20 pacientes. São avaliados parâmetros como a toxidade da droga e suas eventuais reações alérgicas. Na Fase II, verifica-se o efeito clínico, algo como uma eventual regressão do tumor. A Fase III dos testes, porém, envolve centenas de pessoas e seus custos são astronômicos. "É por isso que as empresas de biotecnologia atuam até a segunda etapa dos testes. Depois, licenciam o anticorpo. Nosso produto é uma patente com a informação documentada", diz Pérez. A Recepta já realiza análises em Fase II, com registro na Agência de Drogas e Alimentos dos Estados Unidos (a FDA). E isso é uma façanha - no mundo, somente sete empresas conseguiram desenvolver dez anticorpos. DIVERSIDADE em ramo semelhante também atua a gaúcha FK Biotecnologia, criada pelo médico Fernando Kreutz, em 1999, na incubadora do Centro de Biotecnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre. A diferença entre as companhias está na variedade das ações. Além de anticorpos monoclonais, a FK produz mais de 70 tipos de reagentes para diagnósticos, prepara um bioteste de gravidez (30% mais barato que os convencionais) e um bioinseticida para a dengue. "Adapto os meus produtos de acordo com a oportunidade", diz Kreutz. Astartup fatura R$ 700mil por ano- com lucro de R$ 2.00 mil, totalmente reinvestido no negócio. A fonte dos recursos segue o mesmo mote dos outros empreendimentos do setor: investidor anjo. Finep e o fundo RSTec, num total de aproximadamente R$ 7 milhões. O guarda-chuva da biotecnologia aplicada â medicina é tão amplo que a carioca Cryopraxis encontrou um segmento totalmente diferente para explorar. Em 2001, o bioquímico Eduardo Cruz percebeu que havia espaço para a formação de uma empresa voltada para a coleta e o armazenamento de cordões umbilicais. Eles são usados na obtenção de células-troncas (que dão origem a outros tipos de células), empregadas em pesquisas para o tratamento de problemas cardiovasculares, neurodegenerativos (como Alzhcimer) e diabetes. Hoje, a companhia tem o maior banco do gênero do país, com 18 mil amostras, cuidadas por 180 funcionários. Fatura R$ 50 milhões por ano, com R$ 11 milhões de lucro. Animado, Cruz abriu uma outra empresa, a CellPraxys. que desenvolve aplicações terapêuticas das amostras de cordões umbilicais. Ele mantém oito projetos em curso com esse objetivo. Tirou o número de um livro, onde Donald Trump, o misto de empresário e celebridade, prega que o ideal é sustentar oito iniciativas em andamento para que ao menos uma delas vingue. "O Brasil perdeu a onda da farmoquímica, mas acredito que tem uma boa chance de se recuperar com a biotecnologia", afirma Cruz. Aposta semelhante está sendo feita pela americana Burrill & Company, gestora de fundos de venture capital e prívate equity, especializada em bionegócios. A companhia estabeleceu-se no país em janeiro e acredita que, a médio prazo, pode transformar até três bioempresas brasileiras em multinacionais. O Brasil também abriga a primeira empresa Especializada no sequenciamento de genomas da América Latina. Trata-se da Helixxa, criada em maio, em Campinas (SP).Onomeé uma referência à dupla hélicedo DNA. Ela oferece o produto os manas genéticos de quaisquer seres vivos (de um microrganismo a uma (pessoa). O plano de vôo da companhia foi elaborado há sete anos pelo chefe do Departamento de Biofísica da Univesidade Federal de São Paulo (Unifesp). João Bosco Pesquero, e pelo químico Mário Oliveira. Entre recursos de angels e venturo capital, a dupla angariou RS 4 milhões. "Usamos grande parte dessa quantia para investir em máquinas. Criamos uma infra-estrutura de última geração", diz Pesquero. Os clientes em potencial da Helixxa estão em ramos como agronegócios (a pecuária, inclusive) e universidades, além da indústria farmacêutica. O mapeamento de genes é algo cada vez mais economicamente viável. Um exemplo: a análise completa da Xylella, concluída em 2000, custou US$ 15 milhões e consumiu três anos. Hoje, custaria R$ 3 mil e seria realizada em três dias. "Na verdade, há uma década, gastávamos US$ 1 para decifrar cada letra química de uma sequência como AT ou CG. Hoje, esse valor foi reduzido um milhai> de vezes", acrescenta Pesquero VENTOS CONTRA_Apesar da abundância de casos interessantes, a consolidação dessa indústria no Brasil enfrenta entraves. Torná-la economicamente relevante é uma tarefa que exige a mesma disposição de um alpinista diante de um paredão, A lista de barreiras é extensa. O primeiro item está relacionado ao desenvolvimento da ciência. Nos últimos anus, esse campo avançou de forma elogiável no país. Os indicadores que contabilizam os artigos científicos publicados em revistas internacionais relevantes mostram que o desempenho do Brasil quadruplicou na última década. Há dez anos, os pesquisadores brasileiros eram autores de 0.3% dos textos publicados no mundo. Hoje. esse percentual é de 1,2%. Essa melhora, contudo, não se traduziu em uma maior oferta de mão de obra. A maior parte dos cientistas nacionais (sete em cada dez) atua em universidades, não em empresas. Nos Estados Unidos, a proporção é inversa. A carência de pesquisadores no mundo corporativo tem impacto na estruturação de empresas. À Mokshao, companhia americana que comercializa remédios, um deles biotecnológico, fornece um exemplo. Ela quer montar no Brasil uma fábrica, com investimento previsto de US$ 500 milhões, inicialmente para produzir medicamentos para artrite reumatóide. Mas não encontra trabalhadores especializados. "Não falo somente de pesquisadores. Faltam técnicos para a área operacional. Não há. por exemplo, profissionais habilitados para o controle de qualidade dessas linhas de produção", afirma Mario Grieco, presidente da Moksha 8 para a América Latina. O executivo, que já esteve á frente de indústrias como a Bristol-Myers Squibb e a Monsanto no Brasil, observa que esse tipo de barreira não se dilui com treinamentos rápidos: "Esses profissionais têm de conhecer profundamente procedimentos, materiais, microscópios e outros equipamentos que nunca viram antes". Os recursos para a abertura de empreendimentos em biotecnologia no país também estão longe de ser suficientes. Mais do que isso: estão distantes de ser adequados. Isso porque não basta qualquer dinheiro. São necessários aportes com a visão correta do negócio. "Precisamos de investidores que tragam informação, network, conhecimento de gestão, que saibam como transformar uma pesquisa em produto e, sobretudo, que conheçam caminhos e estratégias para colocar as inovações que criamos no mercado mundial", enumera Pérez, da Recepta Biopharma. "Sem isso, não daremos um passo realmente ambicioso." Financiadores com esse perfil são raros. Tornam-se ainda mais escassos num ramo sensível como a biotecnologia. O projeto de um produto nessa área é arriscadíssimo. Os perigos são tecnológicos e comerciais. Com uma aeronave, por exemplo, ocorre o contrário. Se produzida por uma companhia competente, sabe-se que voará. A dúvida é se o modelo terá boa aceitação no mercado. Por outro lado muitos aviões da biotecnologia nem sequer decolam. E mesmo alguns que saem do chão sucumbem a turbulências. Desastres desse tipo não são incomuns na indústria farmacêutica, mesmo na produção de medicamentos convencionais. Foi isso o que aconteceu com o Vioxx, seis anos atrás. Apesar de ter concluído os testes de forma satisfatória, depois que chegou ao mercado o antiinflamatório mostrou que dobrava o risco de enfartes e derrames. Tevede ser retirado das farmácias pelo laboratório americano Merck & Co. Outro estorvo para a expansão da biotecnologia pode ser definido como ideológico. Existe a real necessidade de uma discussão sobre o impacto dos produtos geneticamente modificados na agricultura e no meio ambiente. O problema é que esse debate não raro está contaminado pela desinformação. "No início do século passado, com o desenvolvimento da indústria automobilística, as pessoas discutiam seriamente se o corpo humano suportaria velocidades acima de 60 quilômetros por hora. E esse tipo de conversa, inconsistente, que precisamos evitar na biotecnologia", diz Fernando Reinach. VENTOS A FAVOR Vencidas barreiras como essas , o Brasil tem chances reais de se firmar em diversas frentes da bioindústria. Algumas tendências acentuam esse potencial. O neozelandês Alan MacDiarmid (1927-2007), Nobel de Química em 2000. apontava com pertinência que, nos próximos 50 anos. mega problemas da humanidade terão de ser resolvidos no campo. Estão, entre eles, a geração de energia, a captação de água e as questões ambientes. Além disso, a Organização das Nações Unidas (ONU) estima que, iriá dar conta do crescimento populacional, a produção agrícola precisa aumentar 70% nos próximos 40 anos. Calcula ainda que a demanda por combustíveis líquidos avançará em mais de 50% antes de meados deste século. O petróleo, se resolver esse monumental pepino, o fará â preços elevados. Para completai; as doenças genéticas formam uni grande ralo x onde escorrem os sistemas públicos de saúde. O câncer é a segunda causa de mortes no mundo e cairiinha para conquistara liderança, hoje ocupada pelas doenças cardíacas. O contraponto positivo para essa cenária nebulosa sé que a indústria no Brasil tem forte vocação para atuar em todos esses segmentos e suprir boa parte dessas demandas. A biotecnologia só faz acentuar essa capacidade inata do país.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Enem Ação: Confira as dicas para se produzir uma boa redação ...

Enem Ação: Confira as dicas para se produzir uma boa redação ...: "Confira as dicas para se produzir uma boa redação Lilica Negrão, professora de português do cursinho Oficina do Estudante, dá dicas sobre ..."

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George Matsas Físico da Unesp conta que foram as equações de Einstein que permitiram supor a existência de buracos negros Marcos Pivetta - Dezembro 2008 Edição Impressa - Especial Einstein © Marcia Minillo Matsas: a ciência moderna superou a ficção Pouco depois de ter completado 76 anos, Albert Einstein morreu em 18 de abril de 1955 em Princeton, nos Estados Unidos. Deixou o mundo possivelmente duvidando da existência de um dos objetos celestes mais fascinantes e misteriosos hoje conhecidos pela astrofísica: os buracos negros. Ironicamente, a presença de corpos extremamente densos e compactos, dotados de um campo gravitacional descomunal capaz de atrair toda a matéria ao seu redor, inclusive a luz, estava codificada na teoria da relatividade geral, formulada por Einstein em 1915. “Tanto quanto eu saiba, Einstein morreu não acreditando que buracos negros existiriam na natureza”, disse George Matsas, professor do Instituto de Física Teórica da Universidade Estadual Paulista (Unesp), na palestra do dia 23 de novembro intitulada “Buracos negros: rompendo os limites da ficção”, mesmo nome do livro que escreveu ao lado de Daniel Vanzella, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) de São Carlos. Ao que tudo indica, o gênio, nesse caso, estava errado. Embora não haja ainda provas diretas da existência de buracos negros, surgiram, a partir dos anos 1960, evidências observacionais consistentes de que esses grandes sugadouros de matéria não são apenas frutos de cálculos matemáticos ou da imaginação de físicos. “Hoje é impossível falar em astrofísica sem considerar a existência dos buracos negros. A ciência moderna superou a ficção e isso é maravilhoso.” Matsas deu uma pequena aula sobre buracos negros. Explicou o que eles são, como se formam e qual a influência que exercem sobre corpos vizinhos no Cosmos. Como o nome indica, buracos negros não emitem luz e não podem ser vistos de forma direta. Sua presença é inferida pelas perturbações que sua enorme força gravitacional provoca na vizinhança. O físico tranqüilizou a platéia. Disse que não há risco de se produzir um buraco negro no Sistema Solar – a massa do Sol não permite que, ao morrer, ele vire um buraco negro – ou na Terra devido a algum acidente. “Experimentos realizados em aceleradores de partículas como o Large Hadron Collider (LHC), do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern), em Genebra, não têm condições de criar buracos negros capazes de destruir a Terra. Aliás é muito improvável que venham a ser criados buracos negros no LHC.” Tipicamente os buracos negros se formam a partir da morte de estrelas com massas enormes. O que faz uma estrela se manter estável é o equilíbrio entre duas forças opostas: uma que exerce pressão de dentro para fora do astro (o processo de fusão nuclear a partir da qual há geração da luz que vemos) e outra de sentido contrário (a gravidade). Quando acaba o combustível que sustenta a fusão nuclear, basicamente o hidrogênio e outros elementos leves, a força gravitacional passa a prevalecer. “A estrela então começa a colapsar”, afirmou. Em estrelas grandes com massas de umas dez vezes a do Sol ou mais, o resultado desse desequilíbrio provoca uma enorme explosão denominada supernova. O evento cataclísmico expele grande parte da massa da estrela. Se a estrela tiver umas 30 vezes a massa do Sol, após a explosão, a fração restante de matéria se concentra numa região de densidade infinita, com um descomunal campo gravitacional, onde, de acordo com a relatividade de Einstein, a curvatura do espaço-tempo é infinita (ou seja, a noção de tempo e espaço não existe mais). Essa região é denominada singularidade. É o coração do buraco negro. A circunferência que determina os limites do buraco negro recebe o nome de horizonte de eventos. Qualquer tipo de matéria ou energia que entre no horizonte de eventos, como um barco que cai num redemoinho, é sugado pelo buraco negro. “As mesmas equações de Einstein que usamos para garantir o funcionamento do GPS são empregadas para estudar o interior dos buracos negros”, comentou Matsas. A primeira evidência científica mais confiável da presença de buracos negros no Universo data de 1964 (e até hoje é estudada). Nesse ano, os astrofísicos começaram a observar uma estrela gigante, de 30 massas solares, da constelação de Cisne, que parecia orbitar em torno do nada, ou melhor, de uma fonte de raios X invisível a olho nu. A melhor explicação para a formação desse aparente sistema binário é a presença de um buraco negro, o Cygnus-X1, com massa equivalente a dez sóis, na vizinhança da estrela. Acredita-se que o buraco negro esteja engolindo paulatinamente a massa da estrela e crie, fora de seus limites, mas em torno de si, um disco de acréscimo de matéria. Uma das assinaturas físicas desse processo é a emissão de raios X ainda antes de a matéria ser engolida pelo buraco negro. Com o auxílio de potentes equipamentos enviados ao espaço pelo homem, como o telescópio Hubble (que opera no espectro da luz visível) e sobretudo o Observatório de Raios X Chandra, lançado pela Nasa em 1999, os astrofísicos passaram a contar com meios mais eficazes de observar indiretamente os efeitos causados (provavelmente) pela presença desses sugadores de matéria em algumas regiões do Universo. Hoje os astrofísicos afirmam que há vários tipos de buraco negro, inclusive no centro de muitas galáxias, como a nossa Via Láctea. “Uma parte significativa da matéria de uma galáxia, talvez até 1%, está na forma de um buraco negro”, disse Matsas. Há muitos mistérios ainda em torno desses objetos invisíveis que sugam matéria. Em 1974, o famoso físico inglês Stephen Hawking propôs que os buracos negros emitem uma forma de radiação que pode levar à sua evaporação. Essa teoria, ainda não comprovada, é hoje conhecida como efeito Hawking. Alguns pesquisadores acreditam que o estudo dos buracos negros levará a uma melhor compreensão das relações entre o espaço e o tempo e possa ser importante para formular a teoria da gravitação quântica, que fundiria os preceitos da mêcanica quântica com a relatividade geral de Einstein. “Os buracos negros podem ser a porta de entrada para compreender a gravitação quântica”, disse Matsas. Buracos negros: rompendo os limites da ficção George Emanuel Avraam Matsas, físico e professor titular do Instituto de Física Teórica (IFT) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), coautor, com Daniel Vanzella, de Buracos negros: rompendo os limites da ficção (Vieira e Lent).

Censo 2010 parte 1

WWF Brasil - Biomas Brasileiros

WWF Brasil - Biomas Brasileiros

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

CIÊNCIA

Cientistas dos EUA conseguem regenerar nervos da espinha Estudo aumenta chance de encontrar a cura para pessoas que perderam movimentos cadeira de rodas O estudo abre caminho para a cura de milhares de pessoas que perderam o movimento dos membros depois de lesões à espinha (Jupiterimages) "Nossa descoberta aponta para um caminho em direção a um possível tratamento para induzir a regeneração das conexões nervosas", afirmou cientista Uma equipe de cientistas americanos conseguiu, pela primeira vez, regenerar células nervosas da espinha de um roedor. A descoberta abre caminho para que, no futuro, pessoas que perderam os movimentos dos membros possam recuperar o controle sobre eles. O estudo foi desenvolvido por pesquisadores das universidades de Irvine, San Diego e Harvard. Eles conseguiram apagar uma enzima, chamada PTEN, que regula o crescimento das células nervosas na espinha. A quantidade de PTEN é baixa durante os estágios iniciais do desenvolvimento dos animais, permitindo a proliferação dessas células nervosas. Quando o crescimento do roedor se completa, a produção de PTEN se acelera, inibindo a capacidade de regeneração das células nervosas da coluna. Um estudo em 2008 mostrou que a inibição da PTEN em camundongos permitia a regeneração das conexões do cérebro com nervo ótico lesionado. O autor do estudo, o neurologista de Harvard Zhigang He, se uniu a Oswald Steward, da Universidade de Irvine, e Binhai Zheng, da Universidade de San Diego, para verificar se a mesma abordagem poderia promover a Regeneração de nervos lesionados na espinha do animal. Até agora, segundo os especialistas, uma regeneração robusta do tecido nervoso da espinha era impossível. De acordo com Steward, "a paralisia e perda de movimento a partir de lesões causadas à coluna são consideradas impossíveis de serem tratadas". Mas ele se diz otimista: "Nossa descoberta aponta para um caminho em direção a um possível tratamento para induzir a regeneração das conexões nervosas após lesões à coluna das pessoas". A perda dos movimentos acontece por causa da quebra das conexões nervosas entre o cérebro e a espinha. Uma lesão do tamanho de uma uva pode levar à paralisia dos movimentos nos membros abaixo da altura em que ocorreu o dano. Uma lesão na região do pescoço, por exemplo, pode causar paralisia nos braços e pernas, perda da sensibilidade abaixo dos ombros, perda da função sexual e riscos secundários, incluindo infecção urinária, inflamações e formação de coágulos. Steward explica que "essas consequências devastadoras ocorrem mesmo que o restante da espinha esteja intacta abaixo da região onde ocorreu o dano". "Todas essas funções poderiam ser restauradas se pudéssemos encontrar uma forma de regenerar as conexões perdidas", completou. No entanto, o médico ressalta que um possível tratamento para seres humanos ainda está longe de virar realidade. Agora, a equipe está verificando se o tratamento por meio da inibição da PTEN pode levar à restauração da função motora dos camundongos lesionados.

BIOÉTICA

Introdução á bioética por Fermin Roland Schramm e Marlene Braz A Bioética é uma ética aplicada, chamada também de “ética prática”[1], que visa “dar conta” dos conflitos e controvérsias morais implicados pelas práticas no âmbito das Ciências da Vida e da Saúde do ponto de vista de algum sistema de valores (chamado também de “ética”). Como tal, ela se distingue da mera ética teórica, mais preocupada com a forma e a “cogência” (cogency) dos conceitos e dos argumentos éticos, pois, embora não possa abrir mão das questões propriamente formais (tradicionalmente estudadas pela metaética), está instada a resolver os conflitos éticos concretos. Tais conflitos surgem das interações humanas em sociedades a princípio seculares, isto é, que devem encontrar as soluções a seus conflitos de interesses e de valores sem poder recorrer, consensualmente, a princípios de autoridade transcendentes (ou externos à dinâmica do próprio imaginário social), mas tão somente “imanentes” pela negociação entre agentes morais que devem, por princípio, ser considerados cognitiva e eticamente competentes. Por isso, pode-se dizer que a bioética tem uma tríplice função, reconhecida acadêmica e socialmente: (1) descritiva, consistente em descrever e analisar os conflitos em pauta; (2) normativa com relação a tais conflitos, no duplo sentido de proscrever os comportamentos que podem ser considerados reprováveis e de prescrever aqueles considerados corretos; e (3) protetora, no sentido, bastante intuitivo, de amparar, na medida do possível, todos os envolvidos em alguma disputa de interesses e valores, priorizando, quando isso for necessário, os mais “fracos” (Schramm, F.R. 2002. Bioética para quê? Revista Camiliana da Saúde, ano 1, vol. 1, n. 2 –jul/dez de 2002 – ISSN 1677-9029, pp. 14-21). Mas a Bioética, como forma talvez especial da ética, é, antes, um ramo da Filosofia, podendo ser definida de diversos modos, de acordo com as tradições, os autores, os contextos e, talvez, os próprios objetos em exame. Algumas definições: "Eu proponho o termo Bioética como forma de enfatizar os dois componentes mais importantes para se atingir uma nova sabedoria, que é tão desesperadamente necessária: conhecimento biológico e valores humanos.” (Van Rensselaer Potter, Bioethics. Bridge to the future. 1971) “Bioética é o estudo sistemático das dimensões morais - incluindo visão moral, decisões, conduta e políticas - das ciências da vida e atenção à saúde, utilizando uma variedade de metodologias éticas em um cenário interdisciplinar”.(Reich WT. Encyclopedia of Bioethics. 2nd ed. New York; MacMillan, 1995: XXI). “A bioética, da maneira como ela se apresenta hoje, não é nem um saber (mesmo que inclua aspectos cognitivos), nem uma forma particular de expertise (mesmo que inclua experiência e intervenção), nem uma deontologia (mesmo incluindo aspectos normativos). Trata-se de uma prática racional muito específica que põe em movimento, ao mesmo tempo, um saber, uma experiência e uma competência normativa, em um contexto particular do agir que é definido pelo prefixo ‘bio’. Poderíamos caracteriza-la melhor dizendo que é uma instância de juízo, mas precisando que se trata de um juízo prático, que atua em circunstâncias concretas e ao qual se atribui uma finalidade prática a través de várias formas de institucionalização. Assim, a bioética constitui uma prática de segunda ordem, que opera sobre práticas de primera ordem, em contato direto com as determinações concretas da ação no âmbito das bases biológicas da existência humana.” (Ladrière, J. 2000. Del sentido de la bioética. Acta Bioethica VI(2): 199-218, p. 201-202). “A palavra ‘bioética’ designa um conjunto de pesquisas, de discursos e práticas, via de regra pluridisciplinares, que têm por objeto esclarecer e resolver questões éticas suscitadas pelos avanços e a aplicação das tecnociências biomédicas. (...) A rigor, a bioética não é nem uma disciplina, nem uma ciência, nem uma nova ética, pois sua prática e seu discurso se situam na interseção entre várias tecnociências (em particular, a medicina e a biologia, com suas múltiplas especializações); ciências humanas (sociologia, psicologia, politologia, psicanálise...) e disciplinas que não são propriamente ciências: a ética, para começar; o direito e, de maneira geral, a filosofia e a teologia. (...) A complexidade da bioética é, de fato, tríplice. Em primeiro lugar, está na encruzilhada entre um grande número de disciplinas. Em segundo lugar, o espaço de encontro, mais o menos conflitivo, de ideologias, morais, religiões, filosofias. Por fim, ela é um lugar de importantes embates (enjeux) para uma multidão de grupos de interesses e de poderes constitutivos da sociedade civil: associação de pacientes; corpo médico; defensores dos animais; associações paramédicas; grupos ecologistas; agro-business; industrias farmacêuticas e de tecnologias médicas; bioindustria em geral” (Hottois, G 2001. Bioéthique. G. Hottois & J-N. Missa. Nouvelle encyclopédie de bioéthique. Bruxelles: De Boeck, p. 124-126) “A bioética é o conjunto de conceitos, argumentos e normas que valorizam e justificam eticamente os atos humanos que podem ter efeitos irreversíveis sobre os fenômenos vitais” (Kottow, M., H., 1995. Introducción a la Bioética. Chile: Editorial Universitaria, 1995: p. 53) [1] Singer P 1994. Ética Prática. São Paulo: Martins Fontes.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

MÚSICA: ALEGRIA ,ALEGRIA

ALEGRIA,ALEGRIA DE CAETANO VELOSO Caminhando contra o vento Sem lenço e sem documento No sol de quase dezembro, Eu vou. O sol se reparte em crimes Espaçonaves, guerrilhas Em Cardinales bonitas, Eu vou. Em caras de presidente, Em grandes beijos de amor, Em dentes, pernas, bandeiras, Bomba e Brigitte Bardot. O sol nas bancas de revista Me enche de alegria e preguiça. Quem lê tanta notícia? Eu vou Por entre fotos e nomes Os olhos cheios de cores O peito cheio de amores vãos. Eu vou Por que não? E por que não? Ela pensa em casamento E eu nunca mais fui à escola Sem lenço e sem documento Eu vou. Eu tomo uma coca-cola Ela pensa em casamento Uma canção me consola Eu vou. Por entre fotos e nomes Sem livros e sem fuzil Sem fome, sem telefone, No coração do Brasil. Ela nem sabe até pensei Em cantar na televisão O sol é tão bonito Eu vou Sem lenço, sem documento Nada no bolso ou nas mãos Eu quero seguir vivendo amor. Eu vou Por que não? E por que não? ANÁLISE: O SUCESSO DA DÉCADA DE 1960 A música Alegria, alegria, de Caetano Veloso Esta letra em questão funcionou como um dos pontos de partida e até síntese do movimento tropicalista ocorrido principalmente na nossa música durante as décadas de 60 e 70, do século passado. O Tropicalismo, movimento sócio-cultural iniciado a partir de 1967, surgiu principalmente na música, mas acabou influenciando toda a cultura nacional, pois retomava basicamente elementos da Antropofagia, do Modernismo Brasileiro, e outros elementos da contra-cultura, da ironia, rebeldia, anarquismo e humor ou terror anárquico. A paródia, a crítica à esquerda intelectualizada, a não-aceitação de qualquer forma de censura, a sedução dos meios de comunicação de massa, o retrato da realidade urbana e industrial, a exploração do ser humano, tudo isso, todos esses elementos montado com uma colagem de fragmentos do dia-a-dia nas grandes cidades do país, eram, de fato, os princípios norteadores da arte tropicalista. CONTEXTO HISTÓRICO O panorama sócio-histórico da época desta canção era de total arrogância direitista. Estávamos em plena Ditadura Militar, especificamente nos “anos de chumbo”, como era chamado o governo do presidente Emílio Garrastazu Médici, conhecido como o mais duro e repressivo do período. Nestes anos, a repressão e a luta armada crescem e uma severa política de censura é colocada em execução. Jornais, revistas, livros, peças de teatro, filmes, músicas e outras formas de expressão artística são proibidas. Alguns partidos políticos passaram para a ilegalidade e a UNE (União Nacional dos Estudantes) teve seu prédio incendiado. Muitos professores, intelectuais, artistas, políticos, jornalistas e escritores são investigados, presos, torturados, exilados ou assassinados. O Regime Militar fora imposto com um grande golpe desde 1964 e, naquele final de década, já havia as revoltas contra esta ditadura. Os estudantes iam às ruas protestar contra um governo ditatorial, que destruía as universidades, deixando-as reféns do sistema de negação do conhecimento, e a população já participava de lutas e passeatas contra o regime militar, mesmo estas sendo proibidas pelos militares. A cultura importada era alienante, por isso, Caetano usa palavras como Brigitte Bardot, Cardinales (em referencia á atriz ítalo-americana Claudia Cardinale) e coca-cola (maior símbolo do império norte-americano, que financiava os exércitos em toda a América Latina). Mas, os anos 60 foram a grande década revolucionária: os anos da minissaia, dos hippies, dos homens de cabelos compridos, da pílula anticoncepcional e, consequentemente da revolução feminina e da liberação sexual. Assim como surgiram ídolos impostos e fabricados pela mídia principalmente nos EUA, também surgiram símbolos de uma época que marcaram tanto pela alienação, quanto pela imposição de um comportamento novo ou pela exposição da exploração sofrida pelo ser humano. Neste patamar, aparecem ídolos da cultura pop e líderes sociais e políticos, como os Beatles, Rolling Stones, Jonh Kennedy, Martin Luther King, Fidel Castro e Che Guevara. Também fazem parte deste contexto histórico, a Guerra do Vietnã, a viagem à Lua, feminismo, lutas pelo aborto e pelo divórcio e a prática do amor livre, tendo como expoente principal o festival de Woodstok, que marcou o planeta com o poder de transformação da sociedade pela juventude. No Brasil, era a época dos grandes festivais de música, do ufanismo dos militares e das obras faraônicas erguidas a partir de grandes empréstimos. Os ídolos da música cantavam versões de sucessos norte-americanos ou europeus. Surgia a Jovem Guarda e logo depois a Bossa Nova. A cultura de massa tupiniquim começava a virar produto de exportação. A MÚSICA E SUA INTENÇÃO Escrita, musicada e interpretada pelo cantor e compositor Caetano Veloso, em novembro de 1967, “Alegria, alegria” ajudou a criar o estilo hoje intitulado de MPB e deslocou a expressão artística musical brasileira para o cenário da crítica social, em um ativismo político sem precedentes na história de outro tipo de arte no mundo. Graças a isso, Caetano Veloso teve grande parte de sua obra censurada pelo regime militar. Chegou a ser preso, junto com seu parceiro musical e amigo, Gilberto Passos Moreira, o Gilberto Gil, também cantor e compositor baiano e atual ministro da cultura do Governo Lula. Os dois artistas ficaram exilados em Londres por quase dois anos. Caetano era classificado para o governo no Brasil como “persona nom gratta”, uma expressão latina que corresponderia a mal-agradecido e, por isso, mal-vindo de volta à pátria. Até 1972, quando ambos voltam do exílio. Na canção, é relatada a opressão sofrida pelo cidadão comum, nas ruas, nos meios de comunicação, em sua cultura nativa, no seu próprio país. A letra denuncia o abuso de poder de forma metafórica “caminhando contra o vento/sem lenço e sem documento”; a violência praticada pelo regime “sem livros e sem fuzil,/ sem fome, sem telefone, no coração do Brasil”; e a precariedade na educação brasileira proporcionada pela ditadura que queria pessoas alienadas: “O sol nas bancas de revista /me enche de alegria e preguiça/quem lê tanta notícia?”. Podemos pegar como exemplo também de formas alienantes, elementos externos à cultura nacional, como alguns símbolos impostos pelo cinema norte-americano que exportava/exporta seus ídolos como: Cardinale, Brigitte Bardot e a coca-cola, principal imposição comercial da mídia na época. Para dar exemplos dos desníveis sociais existentes no Brasil e as diferenças regionais, o autor se utiliza de um expediente inovador. Através de comparações aparentemente desconexas e fazendo uso de metáforas, faz a denúncia dos contrastes regionais, sociais ou econômicos, como nos versos: “Eu tomo uma coca-cola,/Ela pensa em casamento”, “Em caras de presidente/em grandes beijos de amor/em dentes, pernas, bandeiras, bomba e Brigitte Bardot.” INTERTEXTUALIDADE Ao começar a audição da música ou simplesmente da leitura da letra, é impossível não lembrar dos versos de outra canção dessa época de censura. Trata-se de “Para não dizer que não falei das flores”, do cantor paraibano Geraldo Vandré, também perseguido pelo Governo Militar, que convocava o povo para ir às ruas e lutar contra a ditadura vigente. As duas músicas se iniciam com a palavra “Caminhando” e isso já é um grande motivo para suscitar na população à lembrança da outra. Só depois de Geraldo Vandré ter vencido um grande festival de música com esta canção e, também pelo fato dela ter sido proibida e os discos terem sido destruídos pelo governo, é que Caetano tem sua música Alegria, alegria também proibida. Era comum a destruição ou apreensão de discos ou fitas por parte do governo militar, alguns exemplos são da música Ovelha Negra, de Rita Lee e, mais recentemente, o disco de lançamento da banda de rock carioca Blitz foi censurado em duas faixas, que foram expressamente riscadas dos discos de vinil, em 1981. Outro compositor que sofreu muitas perseguições da ditadura foi Chico Buarque, que teve inúmeras músicas censuradas ao longo da carreira. No entanto, o cantor e compositor carioca, amigo e contemporâneo de Caetano Veloso, aprendeu a “driblar” a censura por meio do uso de palavras metafóricas, como na música “Apesar de Você”, gravada primeiramente por Clara Nunes, que criticava o governo ditatorial como se fosse uma relação afetiva entre um homem e uma mulher. “Alegria, alegria” já começa poética desde o título. O que é também característica da obra de Caetano, fazer um certo ritmo nos títulos de suas obras, seja repetindo palavras ou juntando palavras com sons parecidos, produzindo aí uma aliteração. Como nos exemplos: “London, London”, “Podres Poderes”, “Minha Voz, Minha Vida”, “Araçá Azul” ou “Pássaro Proibido”. CAETANO VELOSO , Caetano Emanuel Viana Teles Velloso é um caso à parte na complexa teia de sons e poesias que permeiam a música popular brasileira. Ele tem acesso livre a todas as tribos da música atual, pois viaja por todos os estilos e ritmos, passando facilmente do inovador pop ao incontestável brega, com um forte apelo popular. Ao tempo que dá sempre uma nova leitura às músicas que interpreta, compõe melodias nos mais diversos ritmos, inclusive rock leve ou pesado, samba de raiz, romântico comercial, bossa-nova, baião, axé e outros ritmos regionais. É músico, arranjador, produtor, escritor, cineasta, além de cantor e compositor. Por isso, é considerado um dos grandes intelectuais da contemporaneidade. Se “Alegria, alegria” não é sua obra mais famosa ou mais lembrada pelos seus fãs, é, pelo menos a mais emblemática de uma época que jamais será esquecida da História do Brasil. E Caetano Veloso foi o grande divulgador deste período de grande revolução popular e de tanta efervescência cultural. ANÁLISE ESTILÍSTICA: As figuras de som predominam na letra da música de Caetano Veloso, pois o ritmo é constante, quebrado por palavras e/ou expressões como “eu vou”, no final de cada estrofe. A aliteração está presente tanto na repetição de sons consonantais (consonância) quanto de sons vocálicos (assonâncias), como nos exemplos: “Entre fotos e nomes, sem livros e sem fuzil, sem fone, sem telefone, no coração do Brasil.”: repetição do som do fonema /f/. Nos versos “Caminhando contra o vento, sem lenço sem documento, no sol de quase dezembro”, percebe-se a presença do fonema /k/. Também nos versos “entre fotos e nomes, sem livros e sem fuzil, sem fone, sem telefone, no coração do Brasil”, percebe-se a presença dos sons vocálicos de /em/. O que se repete também nos versos “sem lenço sem documento, no sol de quase dezembro”. A presença de outras figuras de linguagem também é predominante no poema, principalmente a metáfora, como nos exemplos: “Em Cardinales bonitas” ou “Caminhando contra o vento”, que tem o valor semântico de “nadando contra a corrente”, uma expressão popular que significa “estar contra”, no caso, lutar contra a Ditadura Militar. No contexto do momento histórico vivido pelo autor na época do Regime Militar, a expressão “caminhando contra o vento” vem reforçar a idéia central do texto: ser do contra, lutar contra as forças armadas pelo regime ditatorial, promover a união da população contra o governo imposto de forma indireta e arbitrária. Idéia corroborada pelo descumprimento das regras gramaticais da língua padrão, como no exemplo: “Me enche de alegria...”, em que a frase é iniciada pelo pronome oblíquo ME.

1967-10-21 Festival MPB 6 Caetano

DOMINGO NO PARQUE Se você considerar só o título "Domingo no parque", pode achar que se trata de uma canção festiva, ingênua... Mas não é bem assim, não. Você já viu um jogo de capoeira? Aliás: um jogo ou uma luta? É, em geral, usamos o verbo jogar nesse caso: "Fulano joga capoeira muito bem". Mas a capoeira pode ser também uma luta, com um sistema definido de ataque e defesa. Digamos que a letra de Gil de certa maneira se apóia nessa ambigüidade da capoeira. O ritmo da composição lembra em tudo o gingado desse jogo que se originou entre os escravos bantos (de Angola) no Brasil colônia. É, o que está literalmente em jogo aqui é uma luta de morte. "Domingo no parque", à maneira das canções de Chico Buarque, é fundamentalmente uma canção narrativa, fazendo uso de um tempo verbal típico do gênero narrativo (ou épico), que é o pretérito: "trabalhava", "resolveu", "foi", entre outros. Os personagens são dois amigos: José, o rei da brincadeira, e João, o rei da confusão. O acontecimento trágico de que a letra dá notícia ocorrerá justamente num dia em que esses personagens contrariam, digamos assim, seus atributos: porque João escolhe a brincadeira, José se encaminha para a confusão, para a briga: "A semana passada, no fim da semana, João resolveu não brigar, no domingo de tarde saiu apressado e não foi pra ribeira jogar capoeira não foi pra lá, pra ribeira, foi namorar". Nesse trecho, aliás, notamos um recurso que vai ser usado em toda a letra: a anáfora, a repetição de palavras. Note que em "não foi pra lá, pra ribeira, foi namorar", o verbo "ir" aparece ora numa frase negativa, ora numa frase afirmativa, a qual é uma adversativa, com omissão do mas: "não foi pra lá (...), mas foi namorar". O nó da ação, ou seja, o seu ponto crítico, que vai precipitar o acontecimento trágico, é favorecido por esse desvio da rotina: João não vai brigar,(mas) vai namorar. E José? Corte na ação, agora o foco se concentra nele: "O José como sempre no fim da semana Guardou a barraca e sumiu Foi fazer no domingo um passeio no parque Lá perto da Boca do Rio Foi no parque que ele avistou Juliana Foi que ele viu(...)'. A reprodução do incidente se dá aos arrancos, por descontinuidades sintáticas e repetições:"Foi que ele avistou/ Juliana/ foi que ele viu Juliana na roda com João". É como se a descoberta de José ocorresse por partes: ele avista Juliana, mas ainda não vê tudo. O verbo "ver" aqui ganha o sentido de abarcar o conjunto, a totalidade, por oposição ao "avistar", que indica olhar segmentado. É preciso lembrar que não estamos diante de um poema, mas de uma canção, em que letra e música se articulam e que está sujeita a variações de improviso. Conforme o arranjador ou o intérprete, algumas características podem ser enfatizadas. Assim, quando ouvimos Gilberto Gil cantar, primeiro temos "Ele viu", com o verbo "intransitivado"; depois temos "ele viu Juliana na roda com João", em que o verbo volta a ficar transitivo. Essa descontinuidade, essa interrupção da frase, expressa de alguma maneira a comoção de José diante do quadro funesto: o amigo com a sua amada. O choque dessa revelação se dá na linguagem também, que se torna impotente para dar conta de toda a carga dramática da situação. Os objetos, em si inocentes, que Juliana traz na mão, a rosa e o sorvete, vão crescer e adquirir estatuto de símbolo. Já não serão mais inocentes: "O espinho da rosa feriu Zé e o sorvete gelou seu coração". Esses objetos, típicos de um alegre domingo no parque, ganham contornos de pesadelo. São metonímias,ou seja, são partes que valem pelo todo, são índices de algo maior. Lembra-se daqueles sonhos em que um objeto aparentemente simples parece indicar "algo mais" dada sua presença muito marcada e a insistência com que ele fica em nossa memória? Algo disso acontece aqui. Essa atmosfera onírica é intensificada com a repetição, a anáfora: "O sorvete e a rosa - ê José, a rosa e o sorvete - ê José". Temos aqui uma subespécie de anáfora: o quiasmo, a repetição cruzada (formando X) de palavras: sorvete e rosa rosa e sorvete. Veja outra repetição: "Oi, girando na mente - ô, José Do José brincalhão - ô, José Juliana girando - oi, girando Oi, na roda gigante - oi, girando Oi, na roda gigante - oi, girando O amigo João - João". Tudo gira literalmente, inclusive a cabeça de José, que vai deixando de ser brincalhão. Há uma relação de proporção aqui: quanto mais brinca João, quanto mais gira a roda-gigante, mais José vai se tornando sério e mesmo beligerante. A seriedade de um aumenta conforme a disposição jovial e brincalhona do outro. A repetição do verbo girar mais o uso do gerúndio produzem um efeito hipnotizante. A roda-gigante, rodando, põe a girar também a cabeça e as idéias de José. A visão terrível desencadeia a luta, toda descrita por metonímias: a roda girando, a faca, o sangue, o sorvete de morango, vermelho, como a prenunciar o desastre que advirá. O ritmo da capoeira, mistura de jogo e luta, é glosado nessa canção. Visualize um capoeirista jogando: é esse movimento gingado, de avanço e recuo, que descreve o episódio de luta de morte entre João e José. A segunda-feira é de cinzas: amanhã não tem feira nem brincadeira. Nem João nem José. Gilberto Gil Gilberto Passos Gil Moreira nasce em Salvador, Bahia, a 29 de junho de 1942. Passa a infância em Ituaçu, interior baiano, onte tem contato com sanfoneiros e violeiros. Ouve também ídolos do rádio, como Luís Gonzaga. Em 1950 vai estudar em Salvador e, enquanto faz o ginásio, estuda também acordeom. Em 1960 ingressa na Universidade Federal da Bahia para cursar administração de empresas. Em 1963 lança seu primeiro disco, Gilberto Gil - sua música, sua interpretação. Participa de alguns festivais de MPB. Em 1968 lança o disco Gilberto Gil, ligado à tropicália, movimento que teve Gil e Caetano Veloso entre as figuras mais exponenciais. Em dezembro desse mesmo ano é preso em São Paulo, vítima do Ato Institucional nº5. Em Julho de 1969, exila-se em Londres, voltando ao Brasil somente em 1972. Lança vários discos, entre eles, Tropicália ou Panis et Circensis (1968), Um Banda Um (1981), Quanta (1997). Em 1990, é homenageado com o Prêmio Shell para a Música Brasileira, pelo conjunto de sua obra.

DOMINGO NO PARQUE - Gilberto Gil e Os Mutantes

GILBERTO GIL

Domingo no Parque Gilberto Gil Composição: Gilberto Gil O rei da brincadeira Ê, José! O rei da confusão Ê, João! Um trabalhava na feira Ê, José! Outro na construção Ê, João!... A semana passada No fim da semana João resolveu não brigar No domingo de tarde Saiu apressado E não foi prá Ribeira jogar Capoeira! Não foi prá lá Pra Ribeira, foi namorar... O José como sempre No fim da semana Guardou a barraca e sumiu Foi fazer no domingo Um passeio no parque Lá perto da Boca do Rio... Foi no parque Que ele avistou Juliana Foi que ele viu Foi que ele viu Juliana na roda com João Uma rosa e um sorvete na mão Juliana seu sonho, uma ilusão Juliana e o amigo João... O espinho da rosa feriu Zé (Feriu Zé!) (Feriu Zé!) E o sorvete gelou seu coração O sorvete e a rosa Ô, José! A rosa e o sorvete Ô, José! Foi dançando no peito Ô, José! Do José brincalhão Ô, José!... O sorvete e a rosa Ô, José! A rosa e o sorvete Ô, José! Oi girando na mente Ô, José! Do José brincalhão Ô, José!... Juliana girando Oi girando! Oi, na roda gigante Oi, girando! Oi, na roda gigante Oi, girando! O amigo João (João)... O sorvete é morango É vermelho! Oi, girando e a rosa É vermelha! Oi girando, girando É vermelha! Oi, girando, girando... Olha a faca! (Olha a faca!) Olha o sangue na mão Ê, José! Juliana no chão Ê, José! Outro corpo caído Ê, José! Seu amigo João Ê, José!... Amanhã não tem feira Ê, José! Não tem mais construção Ê, João! Não tem mais brincadeira Ê, José! Não tem mais confusão Ê, João!... Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh! Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh! Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh! Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh! Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh!...
Domingo no Parque Gilberto Gil Composição: Gilberto Gil O rei da brincadeira Ê, José! O rei da confusão Ê, João! Um trabalhava na feira Ê, José! Outro na construção Ê, João!... A semana passada No fim da semana João resolveu não brigar No domingo de tarde Saiu apressado E não foi prá Ribeira jogar Capoeira! Não foi prá lá Pra Ribeira, foi namorar... O José como sempre No fim da semana Guardou a barraca e sumiu Foi fazer no domingo Um passeio no parque Lá perto da Boca do Rio... Foi no parque Que ele avistou Juliana Foi que ele viu Foi que ele viu Juliana na roda com João Uma rosa e um sorvete na mão Juliana seu sonho, uma ilusão Juliana e o amigo João... O espinho da rosa feriu Zé (Feriu Zé!) (Feriu Zé!) E o sorvete gelou seu coração O sorvete e a rosa Ô, José! A rosa e o sorvete Ô, José! Foi dançando no peito Ô, José! Do José brincalhão Ô, José!... O sorvete e a rosa Ô, José! A rosa e o sorvete Ô, José! Oi girando na mente Ô, José! Do José brincalhão Ô, José!... Juliana girando Oi girando! Oi, na roda gigante Oi, girando! Oi, na roda gigante Oi, girando! O amigo João (João)... O sorvete é morango É vermelho! Oi, girando e a rosa É vermelha! Oi girando, girando É vermelha! Oi, girando, girando... Olha a faca! (Olha a faca!) Olha o sangue na mão Ê, José! Juliana no chão Ê, José! Outro corpo caído Ê, José! Seu amigo João Ê, José!... Amanhã não tem feira Ê, José! Não tem mais construção Ê, João! Não tem mais brincadeira Ê, José! Não tem mais confusão Ê, João!... Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh! Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh! Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh! Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh! Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh!...
Domingo no Parque Gilberto Gil Composição: Gilberto Gil O rei da brincadeira Ê, José! O rei da confusão Ê, João! Um trabalhava na feira Ê, José! Outro na construção Ê, João!... A semana passada No fim da semana João resolveu não brigar No domingo de tarde Saiu apressado E não foi prá Ribeira jogar Capoeira! Não foi prá lá Pra Ribeira, foi namorar... O José como sempre No fim da semana Guardou a barraca e sumiu Foi fazer no domingo Um passeio no parque Lá perto da Boca do Rio... Foi no parque Que ele avistou Juliana Foi que ele viu Foi que ele viu Juliana na roda com João Uma rosa e um sorvete na mão Juliana seu sonho, uma ilusão Juliana e o amigo João... O espinho da rosa feriu Zé (Feriu Zé!) (Feriu Zé!) E o sorvete gelou seu coração O sorvete e a rosa Ô, José! A rosa e o sorvete Ô, José! Foi dançando no peito Ô, José! Do José brincalhão Ô, José!... O sorvete e a rosa Ô, José! A rosa e o sorvete Ô, José! Oi girando na mente Ô, José! Do José brincalhão Ô, José!... Juliana girando Oi girando! Oi, na roda gigante Oi, girando! Oi, na roda gigante Oi, girando! O amigo João (João)... O sorvete é morango É vermelho! Oi, girando e a rosa É vermelha! Oi girando, girando É vermelha! Oi, girando, girando... Olha a faca! (Olha a faca!) Olha o sangue na mão Ê, José! Juliana no chão Ê, José! Outro corpo caído Ê, José! Seu amigo João Ê, José!... Amanhã não tem feira Ê, José! Não tem mais construção Ê, João! Não tem mais brincadeira Ê, José! Não tem mais confusão Ê, João!... Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh! Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh! Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh! Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh! Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh!...